Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: Rio Preto também cabe no arco-íris: ‘Quando alguém ocupa, à luz do dia, um espaço público para dizer quem é, altera a paisagem moral de uma cidade’

Atualizado em 16 de outubro de 2026, 11:59h
No domingo (11), a represa refletiu mais do que luzes e cores. Refletiu uma pergunta simples, válida para qualquer cidade que se considere moderna: de que adianta crescer para todos os lados se ainda há quem precise diminuir a própria vida para caber nela?

Por Dr. João Paulo Vani

Rio Preto tem dessas contradições que as cidades em crescimento sabem cultivar. Gosta de se reconhecer moderna, empreendedora, aberta aos negócios e às novidades, mas conserva, em muitas conversas, os códigos de um lugar no qual a vida alheia ainda parece assunto de todos. O novo chega depressa às vitrines; aos costumes, nem sempre.

No último domingo, 11 de outubro, a oitava Parada da Diversidade ocupou o Anfiteatro da Represa Municipal. Milhares de pessoas se reuniram para celebrar identidades, afetos e modos de existir que nem sempre encontram acolhimento na rotina. Houve música, apresentações, famílias e serviços de orientação jurídica. A festa, afinal, não precisava escolher entre ser alegre e ser séria.

Uma parada como essa tem uma dimensão simbólica que ultrapassa o palco e os figurinos. Quando alguém ocupa, à luz do dia, um espaço público para dizer quem é, altera a paisagem moral de uma cidade. O lugar é o mesmo, a água da represa continua a mesma, mas aquilo que se pode ver — e aquilo que já não se consegue fingir que não existe — muda um pouco.

Chamar Rio Preto de conservadora exige cuidado. Não há uma única Rio Preto, assim como não há um único conservadorismo. Há tradições religiosas e familiares que oferecem pertencimento, hábitos que atravessam gerações e também preconceitos escondidos atrás da frase confortável de que cada um pode viver como quiser, desde que não apareça demais. O problema começa quando a discrição deixa de ser escolha pessoal e torna-se exigência dirigida aos outros.

A Parada inverte essa lógica. Não reivindica apenas o direito de existir em silêncio, mas o de participar da vida comum. Isso não implica exigir concordância íntima de todos. Uma cidade democrática não precisa produzir habitantes idênticos, nem sentimentos uniformes. Precisa garantir que diferenças não sejam convertidas em constrangimento, exclusão ou violência.

Talvez por isso a presença de famílias seja tão expressiva. Há pais que acompanham os filhos, amigos que encontram amigos, pessoas que desejam estar juntas sem medir cada gesto. Para quem nunca precisou esconder um afeto ou calcular a reação alheia diante da própria identidade, tudo pode parecer somente uma tarde de música. Para quem conhece esse cálculo, estar entre milhares de pessoas sem pedir desculpas por existir assume outro significado.

É fácil medir o sucesso de um evento pelo público que atrai, pelas atrações ou pelo movimento que produz no entorno. Mais difícil é medir o que permanece quando se desmonta o palco. Talvez uma conversa em casa, uma pergunta feita sem constrangimento, a descoberta de que o vizinho não representa ameaça apenas porque vive de maneira diferente. Mudanças culturais raramente acontecem de uma vez; começam quando aquilo que parecia estranho se torna familiar.

Rio Preto continuará sendo uma cidade de tradições, igrejas, clubes, comércio e encontros de família. Nada disso precisa desaparecer para que outras formas de pertencimento sejam reconhecidas. A grandeza de uma cidade não está em preservar uma imagem única de si mesma, mas em permitir que seus habitantes participem da construção dessa imagem.

No domingo, a represa refletiu mais do que luzes e cores. Refletiu uma pergunta simples, válida para qualquer cidade que se considere moderna: de que adianta crescer para todos os lados se ainda há quem precise diminuir a própria vida para caber nela?

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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