
Por Dr. João Paulo Vani
Uma briga marcada com hora e lugar nos remete a algo muito antigo. Antes do primeiro soco, já existe um ritual: dois lados, um desafio, uma plateia esperada e a promessa de que alguma reputação será decidida diante dos outros. O que aconteceu recentemente em frente a uma universidade de São José do Rio Preto parece absolutamente contemporâneo porque circulou por WhatsApp, foi filmado e repercutiu nas redes, mas sua estrutura pertence a uma história muito mais antiga.
Na literatura arturiana, o duelo raramente era apenas violência. Tratava-se de uma violência organizada por um código, no qual se misturavam honra, palavra empenhada, testemunhas, regras e consequências. O cavaleiro não precisava somente derrotar o adversário, mas fazê-lo diante de uma comunidade capaz de reconhecer naquela vitória alguma forma de legitimidade, como se o corpo, submetido ao combate, funcionasse também como tribunal.
Séculos depois, o faroeste preservaria boa parte dessa gramática, mantendo o desafio, a hora marcada, o espaço público e a expectativa da plateia. Foi justamente essa tradição que Renato Russo transportou para Brasília em “Faroeste Caboclo”. João de Santo Cristo e Jeremias não simplesmente se encontram e brigam: o confronto é anunciado, a notícia se espalha, a multidão comparece e a televisão chega, de modo que a violência deixa de ser apenas um acerto de contas para se transformar também em acontecimento.
Talvez esteja aí a ponte mais interessante para o nosso tempo, porque João de Santo Cristo ainda dependia da chegada da televisão ao duelo, enquanto os estudantes de hoje levam a audiência no bolso. Cada celular pode ser, ao mesmo tempo, câmera, arquibancada e meio de distribuição, e o confronto já não precisa esperar pela imprensa para adquirir dimensão pública, ao poder nascer preparado para circular.
A briga física produz então uma segunda disputa, menos corporal e talvez mais duradoura, feita de visualizações, comentários, compartilhamentos, memes e likes. Já não basta vencer o adversário; é preciso também disputar a narrativa da vitória, administrar a imagem do confronto e medir sua repercussão numa lógica na qual a notoriedade deixou de ser apenas percebida e passou a ser contabilizada.
Durante séculos, o duelo procurou revestir a brutalidade de ritual; a cultura digital, em certo sentido, faz o movimento inverso, convertendo a brutalidade em conteúdo. Guy Debord escreveu sobre uma sociedade na qual a experiência tende a ser mediada por imagens, sem evidentemente poder prever a facilidade com que cada indivíduo se tornaria, simultaneamente, personagem, cinegrafista, distribuidor e público. Hannah Arendt, por sua vez, ao distinguir poder de violência, ajuda a lembrar que a exibição da força não é necessariamente prova de poder, embora nossa época tenha acrescentado a essa exibição uma nova medida: o alcance.
Nada disso significa que as redes tenham inventado a violência ou que estejamos diante de alguma degeneração inédita das novas gerações. O impulso de confrontar, humilhar, medir forças e buscar reconhecimento acompanha a humanidade há muito tempo; o que mudou foi a infraestrutura que envolve esse impulso, permitindo que a agressão seja anunciada, registrada, distribuída e consumida quase no mesmo instante em que acontece.
Talvez seja essa a dimensão mais desconfortável da cena, porque ela não envolve apenas os que brigam, mas também os que chegam para assistir, filmar, compartilhar, comentar e fazer circular. Em Camelot, perguntava-se quem tinha razão; no faroeste, quem sobreviveria; em “Faroeste Caboclo”, quem venceria o duelo. Na cultura das redes, talvez seja necessário acrescentar uma pergunta menos heroica e, justamente por isso, mais incômoda: quem estava filmando?






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