Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: escritor reflete e reescreve redação de aluno que tirou nota zero na redação da Fuvest por usar ‘palavras difíceis’

Atualizado em 3 de abril de 2026, 11:51h
Imagem meramente ilustrativa criada por IA.

Por Dr. João Paulo Vani

Entre o Perdão e a Fragmentação

Uma reflexão sobre linguagem, poder e a crise da interioridade no mundo contemporâneo

Em atividades recentes de produção textual, deparamo-nos com um caso que, embora pontual, revela um problema recorrente no ensino da escrita: a associação entre complexidade lexical e qualidade argumentativa. Um texto avaliado com nota zero — não por ausência de repertório, mas por falta de direção — tornou-se, aqui, ponto de partida para um exercício didático. O que se segue é, ao mesmo tempo, uma carta ao candidato e uma reflexão sobre esse fenômeno mais amplo, bem como uma reescrita expandida de seu texto, com finalidade pedagógica e formativa.

Carta ao candidato

Caro candidato,

Antes de qualquer consideração técnica, é importante afirmar: este não é um gesto de exposição, mas de formação. O texto que você produziu — ainda que tenha sido avaliado com nota zero — não foi escolhido por sua fragilidade, mas por sua potência. Há nele repertório, há tentativa de articulação teórica e há, sobretudo, um esforço legítimo de produzir um discurso com densidade.

É justamente por isso que o tomamos como ponto de partida para um exercício didático mais amplo.

O que buscamos compreender, a partir do seu texto, não é um erro individual, mas um fenômeno recorrente: a associação entre complexidade lexical e qualidade argumentativa. Em outras palavras, a ideia — bastante difundida — de que escrever difícil é escrever bem. Esse entendimento não nasce do acaso; ele é, em grande medida, um traço da nossa cultura letrada.

Não por acaso, um dos textos mais conhecidos do país, o Hino Nacional Brasileiro, consagrou expressões como “impávido colosso”, “lábaro que ostentas estrelado” e “clava forte da justiça”. São formulações de grande força estética, mas que também exemplificam uma tradição em que a elevação vocabular se associa à ideia de grandeza. O problema surge quando essa lógica é transposta para contextos em que o objetivo central não é a solenidade, mas a comunicação de ideias.

Nesse sentido, a tradição retórica, desde Aristóteles, oferece um critério importante. Um texto eficaz não se sustenta na ornamentação, mas no equilíbrio entre ethos, pathos e logos. E é justamente aqui que o seu texto nos oferece um aprendizado valioso.

Do ponto de vista do logos, isto é, da estrutura argumentativa, as ideias estão presentes, mas não se organizam em torno de uma tese explicitada. Isso dificulta ao leitor compreender qual problema está sendo enfrentado — no caso, se o perdão pode ser condicionado ou limitado — e em que direção o raciocínio se desenvolve.

No plano do ethos, que envolve a credibilidade do enunciador, ocorre um efeito paradoxal: o uso de termos técnicos e referências teóricas, sem explicitação de sua função, pode produzir o efeito inverso ao pretendido. Em vez de reforçar a autoridade, o texto pode sugerir que o saber está sendo exibido, e não mobilizado.

Já no campo do pathos, relacionado à capacidade de engajar o leitor, a opacidade da linguagem cria uma barreira. Quando o leitor não consegue acompanhar o percurso das ideias, o vínculo com o texto se enfraquece — e aquilo que poderia ser uma reflexão potente se torna distante.

A reescrita que propusemos — aqui apresentada como uma versão expandida do seu texto, com finalidade didática — parte de um princípio simples: as ideias que você mobilizou são, em si, consistentes. O que faltava não era conteúdo, mas organização. Ao explicitar a tese — de que o perdão pode ser condicionado por linguagem, poder e estrutura social —, e ao articular autores como Ferdinand de Saussure, Pierre Bourdieu e Immanuel Kant de forma funcional, o texto passa a cumprir aquilo que se espera de um discurso argumentativo: conduzir o leitor por um raciocínio.

Esse ponto é decisivo. Repertório não é aquilo que se cita, mas aquilo que se faz trabalhar. Linguagem não é aquilo que impressiona, mas aquilo que comunica. E a complexidade não está na dificuldade das palavras, mas na precisão das relações que se estabelecem entre elas.

Talvez o traço mais importante deste exercício seja justamente este: mostrar que o problema não era falta de inteligência, mas de direção. O seu texto apresenta ideias relevantes, mas não as organiza de modo a assumir claramente o tema como eixo estruturador.

Esperamos, assim, que este material possa ser recebido como um convite: não a simplificar o pensamento, mas a torná-lo mais rigoroso na forma como se apresenta. Em um ambiente saturado de discursos, talvez a forma mais exigente de erudição seja justamente esta — fazer-se entender sem renunciar à precisão.

Seguimos em diálogo.

Cordialmente,

João Paulo Vani

Proposta de reescrita expandida

Há experiências que, embora íntimas, não são apenas individuais. O sofrimento que hoje se insinua na vida cotidiana — muitas vezes difuso, silencioso, difícil de nomear — parece menos um desvio pessoal e mais um sintoma de época. Nesse cenário, impõe-se uma questão central: até que ponto aquilo que entendemos como decisão moral livre — como o perdão — permanece, de fato, livre? Ou devemos reconhecê-lo como um ato que pode ser condicionado, limitado e, em certos contextos, estruturalmente determinado por forças externas ao sujeito?

Em A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida, essa tensão se manifesta na forma de uma subjetividade atravessada pela memória e pela violência histórica. A narrativa sugere que aquilo que chamamos de “interioridade” não constitui um espaço originário e autônomo, mas um campo continuamente moldado por experiências sociais e temporais. Nesse sentido, a interioridade não é um refúgio protegido do mundo, mas um território em disputa — e, como consequência, também os atos que nela se produzem, como perdoar, não escapam a essas tensões.

Para compreender esse deslocamento, é necessário começar pela linguagem. Em Ferdinand de Saussure, o signo linguístico resulta de uma relação arbitrária entre significante e significado, estabilizada apenas por convenções sociais. Isso implica que os sentidos não são fixos, mas dependem de contextos históricos e de usos compartilhados. Quando essa estabilidade se fragiliza — como ocorre na contemporaneidade — também os conceitos morais perdem contornos definidos. O “perdão”, nesse cenário, deixa de designar um ato unívoco e passa a comportar sentidos múltiplos: pode significar reconciliação, resignação, imposição ou estratégia. Em outras palavras, a própria ideia de perdoar torna-se semanticamente instável.

Essa instabilidade semântica, no entanto, não é apenas linguística; ela possui base social. Como demonstra Pierre Bourdieu, os indivíduos internalizam estruturas que orientam suas percepções e práticas. A violência simbólica opera justamente nesse nível: ela faz com que normas e expectativas sejam reconhecidas como naturais, mesmo quando limitam a autonomia. Isso implica que o perdão pode ser socialmente induzido — esperado em determinadas situações, exigido em relações assimétricas ou incorporado como obrigação moral. Assim, aquilo que se apresenta como decisão íntima pode, na verdade, refletir condicionamentos estruturais. O sujeito acredita escolher, mas escolhe dentro de limites previamente dados.

Esse ponto permite tensionar a dimensão ética do problema. Em Immanuel Kant, a ação moral deve orientar-se por princípios universais, independentes de circunstâncias particulares. O perdão, sob essa perspectiva, poderia ser concebido como um ato livre, expressão da autonomia racional. No entanto, se os significados são instáveis e as decisões são atravessadas por condicionamentos sociais, essa universalidade torna-se difícil de sustentar. O perdão deixa de ser um princípio incondicional e passa a assumir a forma de um ato situado — condicionado por contextos, limitado por relações e, em certos casos, incompatível com a plena autonomia que a ética kantiana pressupõe.

A esse quadro soma-se a expansão da lógica tecnocrática. Como observa Michael Sandel, as sociedades contemporâneas tendem a submeter esferas tradicionalmente reguladas por valores morais à lógica de mercado. Isso significa que práticas humanas profundas passam a ser avaliadas por critérios de utilidade, eficiência ou conveniência. Nesse ambiente, o perdão pode ser mobilizado como estratégia: um recurso para restaurar relações, gerir conflitos, preservar posições ou atender expectativas sociais. Quando isso ocorre, ele deixa de ser apenas um ato ético e passa a funcionar como instrumento — isto é, como prática inserida em uma racionalidade funcional.

O que se delineia, então, é um processo de fragmentação da subjetividade. O indivíduo contemporâneo encontra-se entre significados instáveis, normas internalizadas e pressões sistêmicas que dificultam a constituição de uma interioridade coerente. Assim, o sofrimento que emerge desse quadro não é apenas psicológico; ele é estrutural. Ele expressa a tensão entre a busca por autonomia e os mecanismos que continuamente a condicionam.

Nesse contexto, afirmar que o perdão pode ser condicionado ou limitado não implica negar seu valor moral, mas reconhecê-lo em sua complexidade. Trata-se de compreender que, na contemporaneidade, mesmo os atos mais íntimos são atravessados por linguagem, poder e estruturas sociais. O perdão permanece possível — e talvez necessário —, mas já não pode ser pensado como plenamente livre ou absolutamente incondicional.

Entre o perdão e a fragmentação, não há uma escolha simples, mas uma relação constitutiva. Perdoamos dentro de condições, sob limites, em meio a forças que nos excedem. E talvez o traço mais inquietante do nosso tempo resida precisamente nisso: mesmo quando buscamos reconciliar-nos — com o outro ou conosco — já não o fazemos a partir de um centro plenamente autônomo, mas de uma interioridade que, ela própria, já se encontra em disputa. Perdoar, hoje, continua sendo um gesto humano fundamental — mas é também, inevitavelmente, um gesto situado.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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