
Por Dr. João Paulo Vani
Há uma linguagem própria nas arquibancadas de um estádio de futebol, construída por milhares de vozes que se confundem, pela inquietação dos corpos que se levantam diante da possibilidade de um gol, pelos cânticos que atravessam gerações e por uma espécie de cumplicidade que permite a desconhecidos compartilhar, durante noventa minutos, sentimentos que dificilmente experimentariam juntos em outras circunstâncias. Para muitos, essa combinação de sons, movimentos e emoções constitui a própria razão de estar ali; para outros, entretanto, a intensidade dos mesmos estímulos pode transformar uma experiência desejada em algo difícil de suportar, lembrando-nos de que o mundo, embora compartilhado, não é percebido da mesma maneira por todos.
No último sábado, o Mirassol Futebol Clube, em parceria com a APAE do município, inaugurou uma sala multissensorial no estádio José Maria de Campos Maia, destinada a oferecer melhores condições de permanência a torcedores autistas e outras pessoas com necessidades específicas de regulação sensorial. A iniciativa, que poderia ser descrita apenas como mais um avanço na estrutura do clube, merece uma reflexão que ultrapasse as dimensões do espaço inaugurado, porque revela uma mudança discreta, mas significativa, na maneira como compreendemos o direito de participar da vida coletiva.
Durante muito tempo, aprendemos a reconhecer as barreiras pela sua materialidade: uma escada diante de quem utiliza cadeira de rodas, uma calçada irregular, uma porta estreita ou um edifício sem elevador. E foi justamente a partir dessas evidências que avançamos na compreensão da acessibilidade, embora ainda encontremos dificuldades para reconhecer obstáculos menos visíveis, presentes na intensidade dos sons, na iluminação dos ambientes, na comunicação pouco acessível ou nas exigências de comportamento que estabelecemos como se todas as pessoas experimentassem o mundo sob as mesmas condições.
A experiência das pessoas autistas, longe de constituir uma realidade uniforme, ajuda a compreender essa questão. Há quem se sinta confortável em ambientes movimentados, assim como há quem encontre dificuldades diante de estímulos simultâneos e imprevisíveis, sem que uma condição seja mais legítima do que a outra. O problema começa quando organizamos os espaços públicos a partir de uma única expectativa de comportamento e, posteriormente, interpretamos como incapacidade individual aquilo que também resulta da ausência de alternativas.
Nesse sentido, a iniciativa do Mirassol possui um mérito que merece ser reconhecido: em vez de exigir que todas as pessoas se adaptem integralmente às condições existentes, procura oferecer um ambiente que considere necessidades distintas. Trata-se de uma inversão importante, próxima da compreensão contemporânea de que as limitações enfrentadas por pessoas com deficiência não podem ser explicadas exclusivamente por características individuais, pois também se relacionam às barreiras que a sociedade produz ou deixa de remover.
Não é difícil perceber como essa reflexão ultrapassa os limites de um estádio. Quantas famílias deixam de frequentar espaços culturais, restaurantes, festas populares ou eventos esportivos porque sabem que determinadas necessidades serão recebidas com estranhamento? Quantas crianças crescem ouvindo, ainda que indiretamente, que precisam aprender a suportar situações para as quais os ambientes poderiam oferecer respostas mais adequadas? E quantos adultos, após inúmeras experiências de incompreensão, simplesmente deixam de participar, não porque lhes falte interesse, mas porque a convivência passou a exigir um esforço que raramente é percebido pelos demais?
É importante, entretanto, não confundir a existência de um espaço adaptado com a solução definitiva para essas questões. A diversidade humana não se acomoda facilmente em modelos únicos, e uma estrutura concebida para oferecer conforto a determinadas pessoas pode não corresponder às necessidades de outras. Por isso, iniciativas dessa natureza precisam ser acompanhadas de escuta, avaliação e liberdade de escolha, para que o ambiente especialmente preparado represente uma possibilidade adicional de participação, e não uma maneira involuntária de estabelecer onde determinadas pessoas devem permanecer.
O desafio, portanto, não está apenas na arquitetura, mas na cultura que orienta a utilização dos espaços. Uma escola pode dispor de recursos adaptados e ainda encontrar dificuldades para respeitar diferentes ritmos de aprendizagem; um teatro pode oferecer condições adequadas de acesso sem que sua equipe esteja preparada para receber públicos diversos; uma cidade pode celebrar suas conquistas urbanísticas enquanto parte de seus habitantes continua encontrando obstáculos para exercer direitos que, em princípio, pertencem a todos.
Talvez seja esse o aspecto mais interessante da experiência de Mirassol, especialmente para uma região que se orgulha de seu desenvolvimento econômico e da capacidade de transformar iniciativas locais em referências mais amplas. O progresso de uma comunidade também pode ser observado na atenção que dedica às pessoas cujas necessidades costumam permanecer fora das decisões sobre os espaços que compartilhamos, não como expressão de generosidade, mas como reconhecimento de que a participação social deve contemplar diferentes formas de existir.
Nada disso exige que a arquibancada deixe de ser barulhenta, que a torcida abandone seus cânticos ou que o futebol perca a intensidade que o tornou uma das manifestações culturais mais populares do país. O que se propõe é algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente: admitir que a experiência coletiva não precisa ser idêntica para ser igualmente legítima.
Ao inaugurar uma sala multissensorial, o Mirassol oferece uma resposta concreta a uma dificuldade que poderia continuar sendo tratada como problema exclusivo de quem a enfrenta. O gesto merece reconhecimento, não porque encerre a discussão, mas porque permite ampliá-la para nossas escolas, equipamentos culturais, serviços públicos e relações cotidianas.
Afinal, o direito de estar em determinado lugar perde parte de seu significado quando as condições para permanecer nele são continuamente negadas. E talvez uma sociedade comece verdadeiramente a acolher suas diferenças quando deixa de perguntar quanto esforço cada pessoa precisa fazer para se adaptar ao mundo e considera o que pode modificar nesse mesmo mundo para que mais pessoas tenham a oportunidade de compartilhá-lo.






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