
Por Dr. João Paulo Vani
Saber utilizar ferramentas de inteligência artificial deixou de ser uma habilidade restrita às empresas de tecnologia. Em cidades como São José do Rio Preto, elas começam a fazer parte da rotina de escritórios, clínicas, escolas, agências, redações, indústrias, comércios e pequenos negócios. Há profissionais recorrendo à IA para organizar informações, preparar relatórios, revisar textos, analisar documentos, elaborar apresentações e acelerar tarefas que antes consumiam horas de trabalho.
Essa presença crescente – que tenho observado no universo acadêmico – trouxe para o debate uma expressão ainda pouco conhecida fora dos ambientes especializados: AI literacy, ou letramento em inteligência artificial. O conceito não se limita ao domínio de comandos, nem à capacidade de obter respostas rápidas de uma plataforma. Refere-se à compreensão de como essas ferramentas funcionam, de seus limites, dos riscos relacionados ao uso de dados e da responsabilidade de quem utiliza o conteúdo produzido por elas.
A qualidade de uma resposta depende, em grande medida, da qualidade da pergunta. Mas nem uma boa pergunta garante uma informação correta. Sistemas de inteligência artificial podem apresentar dados inexistentes, misturar referências, reproduzir preconceitos e construir explicações falsas com uma segurança capaz de convencer até leitores experientes. O texto pode estar bem escrito, coerente e organizado e, ainda assim, estar errado.
Por essa razão, a adoção da IA no mercado de trabalho não diminui a importância da formação profissional. Ela aumenta a necessidade de repertório, experiência e capacidade de análise. Um advogado precisa conferir a jurisprudência encontrada; um jornalista deve verificar nomes, datas e documentos; um professor não pode transformar uma resposta automática em material didático sem avaliação; um profissional da saúde precisa preservar dados sensíveis e reconhecer os limites éticos de qualquer ferramenta. A tecnologia pode auxiliar o trabalho, mas não assume suas consequências.
É justamente nesse ponto que o letramento em inteligência artificial se aproxima da educação midiática. Textos, fotografias, áudios e vídeos falsos tornaram-se mais fáceis de produzir e mais difíceis de identificar. Consultar a fonte original, comparar versões e recorrer a agências de checagem, como Lupa, Aos Fatos e Projeto Comprova, já não é uma prática exclusiva do jornalismo. Passou a integrar o conjunto de cuidados necessários para circular em um ambiente informacional marcado pela velocidade e pela disputa de narrativas.
Ao descrever a modernidade líquida, Zygmunt Bauman chamou atenção para um mundo em que formas, vínculos e certezas deixavam de conservar estabilidade por muito tempo. A imagem ajuda a compreender um mercado no qual ferramentas surgem, funções se modificam e conhecimentos envelhecem antes mesmo de serem plenamente incorporados. Nesse cenário, aprender continuamente talvez seja mais importante do que dominar uma única tecnologia.
Resta saber como cada profissional pretende atravessar essa mudança. A inteligência artificial será usada apenas para produzir mais rapidamente ou também para compreender melhor o que produz? Será capaz de desconfiar de uma resposta conveniente? Saberá reconhecer quando a ferramenta amplia sua capacidade e quando apenas disfarça uma lacuna de conhecimento? Em um mercado cada vez mais automatizado, talvez a pergunta decisiva não seja o que a inteligência artificial consegue fazer, mas o que ainda esperamos que o profissional saiba pensar, verificar e assumir como responsabilidade própria.







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