
Por Dr. João Paulo Vani
Há tempos uma notícia não tinha a força de surpreender, desmotivar e parecer capaz de desmontar anos de trabalho intelectual. Pois foi exatamente essa a sensação que tive ao ler que uma professora encontrou fragmentos de vidro no copo de água que havia deixado sobre sua mesa durante uma aula. Eu, que passei boa parte da vida estudando formação de professores, linguagem, produção de materiais didáticos e metodologias de ensino, sempre procurei responder a uma pergunta: Como ensinar melhor? Preocupei-me, desde o começo — quando fazia Iniciação Científica financiada pelo CNPq via PIBIC —, com assimetria, com professores sem perfil, sem compromisso ou sem condições de trabalho, questão percebida, sobretudo, pela perspectiva formativa, considerando a ausência de materiais adequados, como o que agora finalizo, após quatro anos de pós-doutoramento na USP, para o ensino do Holocausto a alunos do ensino médio; mas nunca imaginei que, após tantos anos, e várias experiências, em vários países, seria levado a formular outra pergunta, infinitamente mais desconcertante: Como garantir que um professor possa simplesmente dar aula sem receio de beber a água que está sobre sua mesa?
Ao longo de minha carreira, jamais entrei em uma sala de aula imaginando que pudesse correr qualquer risco físico. Meu receio sempre foi outro: não conseguir despertar o interesse dos alunos, não explicar suficientemente bem um conceito, não fazer justiça a um autor, a uma obra ou a uma ideia. Nunca pensei que um professor pudesse precisar desconfiar da água que bebe. Por isso, ainda que a tragédia tenha sido evitada, o episódio possui uma força simbólica que ultrapassa, e muito, os limites do caso concreto. Não estamos diante de mais um registro de indisciplina escolar, tampouco de uma “brincadeira” de mau gosto, expressão que tantas vezes se utiliza levianamente para suavizar condutas cuja gravidade preferimos não encarar. Estamos diante de um acontecimento que expõe uma fratura moral cuja extensão talvez ainda não sejamos capazes de dimensionar.
É evidente que o Direito fará seu trabalho. Caberá às autoridades apurar responsabilidades e aplicar as medidas previstas na legislação. Mas, como pesquisador e professor, confesso que essa dimensão jurídica, embora indispensável, não é a que mais me inquieta. Minha preocupação está em outro lugar. Ela começa muito antes da tipificação da conduta e permanece mesmo depois da eventual responsabilização dos envolvidos. O que me perturba é imaginar o percurso cultural que possibilitou que uma ideia dessa natureza fosse concebida, compartilhada e executada dentro de uma escola, justamente o espaço que uma sociedade organiza para transmitir conhecimento, preservar valores e preparar seus jovens para a vida em comum.
Émile Durkheim talvez tenha formulado uma das definições mais simples e mais poderosas de educação ao descrevê-la como a ação das gerações adultas sobre aquelas que ainda não estão preparadas para a vida social. Vale observar que ele não fala apenas da ação da escola. Fala da ação dos adultos. A diferença é enorme. Antes de existir um professor, existe uma família; antes de existir uma sala de aula, existe uma casa; antes de existir um currículo, existe um exemplo. Quando esses elementos se fragilizam, a escola passa a receber não apenas alunos, mas sujeitos fragmentados que carregam ausências, situação com a qual a escola não pode lidar, pois não tem condições de preencher essas lacunas sozinha.
Há décadas, o debate educacional concentra-se, legitimamente, em temas como currículo, inclusão, inovação, tecnologias digitais, metodologias ativas e avaliação da aprendizagem. Todos esses assuntos são relevantes. Participei de incontáveis debates sobre eles durante minha trajetória acadêmica e me mantenho convencido de sua importância. No entanto, episódios como este nos obrigam a reconhecer que existe uma questão anterior a qualquer teoria pedagógica: nenhuma metodologia consegue ensinar aquilo que uma comunidade inteira deixou de considerar indispensável. Antes da didática, existe a ética; antes do currículo, existe o reconhecimento da humanidade do outro; antes da aprendizagem, existe um limite civilizatório que impede que alguém veja na dor alheia motivo para diversão, desafio ou demonstração de poder.
Michel Foucault mostrou que a escola moderna compartilha mecanismos disciplinares com instituições como o quartel, a fábrica e a prisão. Talvez se surpreendesse ao perceber que, décadas depois, sua crítica seria utilizada tanto para justificar a recusa de qualquer forma de autoridade quanto para legitimar experiências que aproximam simbolicamente a escola do universo militar. Em ambos os casos, parece ter escapado o essencial: autoridade não é sinônimo de autoritarismo, assim como disciplina não se confunde com submissão. Enquanto discutíamos, legitimamente, os limites da disciplina escolar, deixamos de perceber que nenhuma sociedade sobrevive apenas da desconstrução de suas autoridades. A disciplina pode ser criticada; a responsabilidade não pode desaparecer. Reduzimos a autoridade sem consolidar a responsabilidade. Perdemos instrumentos de contenção sem construir, na mesma velocidade, convicções morais capazes de substituí-los.
Nesse aspecto, Hannah Arendt talvez tenha percebido algo que hoje se revela de forma dramática. Em seu ensaio sobre a crise da educação, ela afirma que educar significa assumir responsabilidade pelo mundo diante daqueles que acabam de chegar a ele. Mas ninguém apresenta aquilo que já abandonou. Quando famílias, comunidades e instituições renunciam a esse dever, imaginando que a escola resolverá sozinha aquilo que deveria nascer muito antes da alfabetização, produzem um efeito perverso: abandonam as novas gerações justamente quando acreditam estar lhes concedendo liberdade.
Talvez por isso eu tenha dificuldade em aceitar a ideia, tão difundida na sociedade contemporânea, de que a escola deve resolver todos os problemas sociais. Espera-se que ela eduque para o trânsito, para o meio ambiente, para a cidadania, para a saúde, para a diversidade, para o consumo consciente, para a convivência democrática, para o mundo digital e para inúmeras outras demandas que surgem a cada geração. Tudo isso é desejável. O problema começa quando se espera que ela substitua aquilo que jamais lhe pertenceu: a formação moral elementar de uma criança. Aprende-se em casa que não se agride gratuitamente, que não se humilha por diversão, que a dor do outro importa e que determinadas fronteiras simplesmente não são atravessadas. A escola pode reforçar esses valores, mas dificilmente conseguirá criá-los em territórios nos quais jamais chegaram a se constituir.
Não escrevo estas linhas em defesa de uma escola autoritária, porque nunca acreditei que o medo pudesse educar alguém. Também não confundo autoridade com autoritarismo, nem disciplina com violência simbólica. O que me parece urgente recuperar é outra coisa: a autoridade legítima que nasce do reconhecimento social de que ensinar é uma função pública essencial e de que nenhum professor deveria precisar negociar, todos os dias, as condições mínimas para exercer seu trabalho. O que está em jogo é algo muito mais simples e, justamente por isso, muito mais grave: a perda de um consenso segundo o qual o educador merece proteção, respeito e confiança. Quando um professor precisa desconfiar da água que bebe durante uma aula, não é apenas sua segurança que está ameaçada. É a própria possibilidade de ensinar que começa a ser corroída.
Solidarizo-me profundamente com a professora que viveu esse episódio. Não apenas porque foi vítima de uma violência que poderia ter produzido consequências irreversíveis, mas porque, sem o desejar, acabou representando milhares de docentes brasileiros que entram diariamente em suas salas de aula carregando uma responsabilidade imensa e, cada vez mais, uma vulnerabilidade igualmente sem medida. A eles costumamos oferecer homenagens em datas comemorativas, discursos emocionados sobre a importância da educação e promessas de valorização que raramente se convertem em políticas consistentes. Talvez tenha chegado o momento de admitir que nenhuma reforma curricular produzirá resultados duradouros enquanto não formos capazes de reconstruir o pacto ético que torna a educação possível.
De minha parte, continuarei entrando em sala de aula acreditando na educação. É a profissão que escolhi e à qual dediquei minha vida. Mas confesso que hoje o faço com uma tristeza que nunca havia sentido. Porque, quando um professor já não pode confiar nem no copo de água que repousa sobre sua mesa, talvez o problema já não seja apenas da escola. Talvez seja de uma sociedade que começa a perder a capacidade de reconhecer aqueles que dedicam a vida a formar as próximas gerações.







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