
Por Dr. João Paulo Vani
Uma mochila escolar rosa não deveria, primariamente, ocupar o centro simbólico de uma Copa do Mundo. Ainda assim, poucas imagens (re)produzidas pelo torneio de 2026 condensam de maneira tão poderosa as relações entre memória, violência e esquecimento quanto a fotografia do jogador iraniano que a ergue diante de um estádio lotado.
O gesto ocorreu em março, após o bombardeio da escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, episódio que matou dezenas de crianças e professores, e voltou a circular nos últimos dias. Em vez de discursos, bandeiras ou palavras de ordem, a seleção iraniana escolheu um objeto comum para prestar homenagem às vítimas: uma mochila escolar. O resultado foi um dos protestos mais silenciosos e, justamente por isso, mais impactantes dos últimos anos.
A força da imagem nasce de um contraste evidente. O estádio representa competição, força física, nacionalismo e espetáculo. A mochila remete à infância, à rotina escolar e à fragilidade da vida cotidiana. Quando o atleta a ergue acima da cabeça, o objeto deixa de ser apenas um acessório e se transforma em símbolo. A mochila passa a representar aquelas crianças que já não podem estar presentes.
Walter Benjamin observou que certos objetos sobrevivem às catástrofes e, por isso, tornam-se portadores de memória. Não porque falem por si mesmos, mas porque carregam os vestígios daqueles que desapareceram. A mochila rosa pertence a essa categoria. Ela cumpre a mesma função que os sapatos preservados em Auschwitz, as fotografias encontradas após guerras ou os nomes gravados em monumentos memoriais. São objetos que recusam o esquecimento.
O esporte, em diferentes momentos históricos, transformou-se em palco para esse tipo de lembrança. Em 1968, Tommie Smith e John Carlos ergueram os punhos no pódio olímpico do México, transformando uma cerimônia esportiva em denúncia contra o racismo. Muhammad Ali recusou-se a servir na Guerra do Vietnã e pagou alto preço por essa decisão. Décadas depois, Colin Kaepernick ajoelhou-se durante o hino norte-americano para protestar contra a violência racial. Em todos esses casos, o gesto permaneceu na memória muito depois que os resultados esportivos foram esquecidos.
No Brasil, um episódio menos conhecido ocorreu em 2019, quando o Corinthians entrou em campo com uma Estrela de Davi amarela acima do escudo em homenagem às vítimas do nazismo. O símbolo que havia sido utilizado para marcar, separar e humilhar judeus reaparecia ressignificado como instrumento de lembrança. A camisa deixava de ser apenas uniforme e assumia, por alguns instantes, a função de memorial.
Essa lembrança torna-se particularmente necessária em um momento de recrudescimento do antissemitismo em diferentes partes do mundo. Primo Levi advertiu que aquilo que aconteceu pode voltar a acontecer. Hannah Arendt demonstrou como a violência moderna depende da transformação de pessoas em categorias abstratas. E Paul Ricoeur recordou que a memória não é apenas um exercício de preservação do passado, mas uma responsabilidade ética diante daquilo que corre o risco de ser esquecido.
Talvez seja por isso que a fotografia dos jogadores iranianos produza tamanho desconforto. Ela não exige que o espectador escolha imediatamente um lado geopolítico, nem pretende resolver os conflitos que a cercam. Seu efeito é mais simples e mais profundo. A imagem recorda que toda guerra começa a produzir ruínas muito antes da destruição dos edifícios. Ela destrói histórias, interrompe infâncias e converte vidas em estatísticas, pois os objetos sobrevivem. As pessoas, nem sempre.
E é por isso que a mochila rosa permanece na memória muito depois do apito final. Ela pertence à mesma linhagem dos sapatos, das malas, das cartas, dos retratos e das estrelas amarelas preservadas em museus e memoriais. Todos esses objetos carregam uma mensagem elementar e incômoda: a civilização começa a fracassar quando deixa de enxergar indivíduos e passa a enxergar apenas categorias.
A mochila erguida no estádio não oferece respostas. Ela faz algo mais importante. Ela impede que a pergunta desapareça junto com as vítimas.







No Comments