Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: A mochila rosa – uma reflexão sobre os objetos que sobrevivem às tragédias e recusam o esquecimento.

Atualizado em 19 de junho de 2026, 10:28h
Todos os titulares da seleção do Irã alinharam-se segurando pequenas mochilas rosas e roxas antes de um amistoso contra a Nigéria. A homenagem coletiva simbolizou solidariedade às crianças e aos professores mortos em um ataque aéreo à Escola Shajareh Tayyebeh, em Minab. (Foto: Reprodução/teammellifootball)

Por Dr. João Paulo Vani

Uma mochila escolar rosa não deveria, primariamente, ocupar o centro simbólico de uma Copa do Mundo. Ainda assim, poucas imagens (re)produzidas pelo torneio de 2026 condensam de maneira tão poderosa as relações entre memória, violência e esquecimento quanto a fotografia do jogador iraniano que a ergue diante de um estádio lotado.

O gesto ocorreu em março, após o bombardeio da escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, episódio que matou dezenas de crianças e professores, e voltou a circular nos últimos dias. Em vez de discursos, bandeiras ou palavras de ordem, a seleção iraniana escolheu um objeto comum para prestar homenagem às vítimas: uma mochila escolar. O resultado foi um dos protestos mais silenciosos e, justamente por isso, mais impactantes dos últimos anos.

A força da imagem nasce de um contraste evidente. O estádio representa competição, força física, nacionalismo e espetáculo. A mochila remete à infância, à rotina escolar e à fragilidade da vida cotidiana. Quando o atleta a ergue acima da cabeça, o objeto deixa de ser apenas um acessório e se transforma em símbolo. A mochila passa a representar aquelas crianças que já não podem estar presentes.

Walter Benjamin observou que certos objetos sobrevivem às catástrofes e, por isso, tornam-se portadores de memória. Não porque falem por si mesmos, mas porque carregam os vestígios daqueles que desapareceram. A mochila rosa pertence a essa categoria. Ela cumpre a mesma função que os sapatos preservados em Auschwitz, as fotografias encontradas após guerras ou os nomes gravados em monumentos memoriais. São objetos que recusam o esquecimento.

O esporte, em diferentes momentos históricos, transformou-se em palco para esse tipo de lembrança. Em 1968, Tommie Smith e John Carlos ergueram os punhos no pódio olímpico do México, transformando uma cerimônia esportiva em denúncia contra o racismo. Muhammad Ali recusou-se a servir na Guerra do Vietnã e pagou alto preço por essa decisão. Décadas depois, Colin Kaepernick ajoelhou-se durante o hino norte-americano para protestar contra a violência racial. Em todos esses casos, o gesto permaneceu na memória muito depois que os resultados esportivos foram esquecidos.

No Brasil, um episódio menos conhecido ocorreu em 2019, quando o Corinthians entrou em campo com uma Estrela de Davi amarela acima do escudo em homenagem às vítimas do nazismo. O símbolo que havia sido utilizado para marcar, separar e humilhar judeus reaparecia ressignificado como instrumento de lembrança. A camisa deixava de ser apenas uniforme e assumia, por alguns instantes, a função de memorial.

Essa lembrança torna-se particularmente necessária em um momento de recrudescimento do antissemitismo em diferentes partes do mundo. Primo Levi advertiu que aquilo que aconteceu pode voltar a acontecer. Hannah Arendt demonstrou como a violência moderna depende da transformação de pessoas em categorias abstratas. E Paul Ricoeur recordou que a memória não é apenas um exercício de preservação do passado, mas uma responsabilidade ética diante daquilo que corre o risco de ser esquecido.

Talvez seja por isso que a fotografia dos jogadores iranianos produza tamanho desconforto. Ela não exige que o espectador escolha imediatamente um lado geopolítico, nem pretende resolver os conflitos que a cercam. Seu efeito é mais simples e mais profundo. A imagem recorda que toda guerra começa a produzir ruínas muito antes da destruição dos edifícios. Ela destrói histórias, interrompe infâncias e converte vidas em estatísticas, pois os objetos sobrevivem. As pessoas, nem sempre.

E é por isso que a mochila rosa permanece na memória muito depois do apito final. Ela pertence à mesma linhagem dos sapatos, das malas, das cartas, dos retratos e das estrelas amarelas preservadas em museus e memoriais. Todos esses objetos carregam uma mensagem elementar e incômoda: a civilização começa a fracassar quando deixa de enxergar indivíduos e passa a enxergar apenas categorias.

A mochila erguida no estádio não oferece respostas. Ela faz algo mais importante. Ela impede que a pergunta desapareça junto com as vítimas.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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