Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: A Exaustão de Nunca Ser Suficiente – Uma reflexão sobre a sociedade da pós-verdade

Atualizado em 15 de maio de 2026, 10:29h
A sociedade da pós-verdade consolidou um tempo histórico em que produtividade, felicidade e desempenho deixaram de ser desejos humanos para se tornarem exigências permanentes. O resultado é uma subjetividade cansada, ansiosa e constantemente convencida de sua própria insuficiência.

Por Dr. João Paulo Vani

Existe uma percepção que atravessa a vida contemporânea sem nunca ser completamente nomeada: a de que estamos em dívida permanente com alguma coisa. Falta produtividade, falta estabilidade emocional, falta atualização — de repertório, de idiomas, de autocuidado, de saúde mental, de organização financeira, de presença digital. A lista muda, mas a sensação fica. Em algum momento das últimas décadas, a vida deixou de ser vivida para tornar-se um projeto contínuo de aperfeiçoamento de si mesmo. E o problema é que esse projeto não tem data de entrega.

Foi sobre essa mutação que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han construiu parte central de sua obra. Ao descrever o que chamou de “sociedade do cansaço”, Han argumenta que o sujeito contemporâneo não vive mais apenas sob a lógica da repressão clássica que Michel Foucault descreveu — aquela da vigilância, da disciplina, da interdição vinda de fora. O mecanismo hoje é outro, e mais sofisticado: a exploração foi deslocada para dentro do indivíduo. Em vez de obedecer a uma ordem externa, o sujeito contemporâneo se autovigilância. Transformou-se em gestor de si mesmo, responsável por construir uma identidade competitiva, administrar sua imagem, produzir relevância e converter a própria existência em capital simbólico. Quando fracassa, a culpa é inteiramente sua — não de um sistema, não de uma circunstância, não de nada fora dele.

É por isso que o cansaço de hoje tem uma textura diferente da fadiga de outras épocas. Não se trata apenas de esgotamento físico. É uma exaustão subjetiva, produzida pela necessidade permanente de corresponder a expectativas que nunca param de se deslocar. Descansa-se, mas sem descanso verdadeiro. O sono virou produtividade biológica. O exercício virou gestão de performance. A viagem virou conteúdo. Até a busca por equilíbrio emocional comparece submetida à lógica da eficiência — como se sentir-se bem fosse mais uma meta a ser atingida do que uma condição a ser habitada.

A chamada era da pós-verdade aprofunda ainda mais esse cenário, embora o fenômeno vá além da questão das fake news ou da deterioração do debate político — por mais graves que sejam esses problemas. O que está em jogo é uma transformação mais estrutural na relação entre realidade, narrativa e percepção coletiva. O que ganha centralidade hoje já não é necessariamente o que corresponde aos fatos, mas o que produz maior adesão emocional, maior impacto simbólico, maior circulação. A experiência vivida vai sendo substituída por representações editadas da realidade. As redes sociais são o principal laboratório desse processo, ao converterem a vida cotidiana em vitrine permanente de desempenho. O indivíduo compara sua experiência real — cheia de contradições, inseguranças, limitações comuns — com versões curadas da vida alheia. A inadequação que daí resulta não é acidental: é estrutural.

Zygmunt Bauman havia antecipado parte desse movimento ao descrever a modernidade líquida como um tempo de fragilidade das estruturas duradouras. Relações tornam-se descartáveis, vínculos passam a ser provisórios e identidades exigem atualização constante. Em vez de construir permanências, o sujeito contemporâneo administra instabilidades. Vive em estado contínuo de adaptação, como se qualquer pausa representasse risco de obsolescência — social, profissional, afetiva.

O que torna tudo isso ainda mais difícil de enfrentar é que essa lógica da insuficiência permanente é rentável. O mercado contemporâneo descobriu que a insegurança é um motor de consumo extraordinário. Indivíduos inseguros compram mais: compram produtos para otimizar produtividade, métodos para controlar emoções, aplicativos para medir hábitos, cursos que prometem eliminar qualquer traço de inadequação, discursos motivacionais que transformam ansiedade em combustível. A economia da atenção e do desempenho não combate a sensação de carência — ela depende dela.

Hannah Arendt, em outro contexto histórico, já expressava preocupação com sociedades incapazes de cultivar profundidade reflexiva, que substituíam pensamento crítico por automatismos e reações imediatas. A aceleração digital radicalizou esse diagnóstico de maneiras que ela provavelmente não poderia prever. A internet praticamente aboliu os intervalos entre acontecimento, interpretação e manifestação pública. Tudo exige posicionamento imediato. Tudo precisa ser comentado antes que venha a próxima coisa. O silêncio passou a parecer ausência de repertório, e a lentidão passou a ser confundida com incompetência.

É aqui que o pensamento de Paul Ricoeur parece cada vez mais necessário. Ricoeur compreendia a identidade como uma construção narrativa — algo elaborado lentamente, a partir da interpretação da própria experiência vivida. Mas a cultura digital tende a substituir elaboração por reação. Não há tempo para que a experiência sedimente, para que o vivido se transforme em sentido. Há excesso de estímulo, excesso de informação, excesso de opinião — e, paradoxalmente, escassez de significado.

O resultado é uma subjetividade permanentemente tensionada pela sensação de não alcançar o que dela se espera. Nunca se produz o suficiente, nunca se descansa o suficiente, nunca se ama da maneira correta, nunca se está à altura do ritmo que o mundo impõe. A vida vira uma corrida cujo critério de chegada muda antes de se chegar.

Diante disso, talvez uma das tarefas mais urgentes — intelectual e humanamente — seja recuperar o direito à imperfeição, à pausa e à incompletude. Não como forma de resignação, mas como resistência a uma cultura que transformou desempenho em valor absoluto. Uma sociedade que não consegue admitir os limites humanos inevitavelmente produzirá indivíduos cansados, fragmentados e convictos, com uma persistência impressionante, de que jamais serão o suficiente.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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