Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: A Pedagogia silenciosa dos ídolos – uma reflexão sobre a morte de Ayrton Senna

Atualizado em 1 de maio de 2026, 11:44h
Quadro do artista Rodrigo Motta. (Foto: Reprodução)

Por Dr. João Paulo Vani

A morte de Ayrton Senna não se limita a um marco histórico. Ela representa uma inflexão simbólica na maneira como o Brasil constrói — e por vezes perde — suas referências. Mais do que um piloto excepcional, ele encarnou, para muitos, uma forma concreta de agir sob pressão sem renunciar a princípios.

Em qualquer sociedade, o ídolo ultrapassa o campo do espetáculo. Ele atua como um agente formativo, um espelho ampliado no qual se projetam expectativas coletivas de comportamento. Não se trata apenas de admiração: o ídolo é observado, interpretado e, em certa medida, incorporado. Sua vida pública se transforma em um repertório de gestos que transcende sua área de atuação e alcança o campo ético.

Essa perspectiva encontra eco na reflexão de Hannah Arendt, para quem a ação, quando exposta ao espaço público, carrega uma dimensão exemplar. Agir é, também, narrar-se diante dos outros — e, nesse processo, tornar-se passível de imitação. O ídolo, nesse sentido, é aquele cuja trajetória adquire densidade suficiente para orientar outras.

Senna parecia compreender intuitivamente esse lugar. Sua busca pela excelência não se confundia com vaidade técnica; havia nela uma disciplina rigorosa, quase inegociável, que remetia a uma ética do dever. Em suas atitudes e declarações, percebia-se aquilo que Max Weber definiu como “ética da convicção”: a fidelidade a princípios que não se relativizam, mesmo diante de custos elevados.

Entretanto, o ídolo habita uma zona de tensão. A mesma sociedade que o consagra pode descartá-lo com igual rapidez. Guy Debord já apontava que, na sociedade do espetáculo, a imagem tende a substituir a experiência, esvaziando o conteúdo em favor da aparência. O risco contemporâneo é transformar ídolos em meros instrumentos de visibilidade, desvinculados de qualquer referência ética.

É precisamente nesse ponto que a memória de Senna se sustenta. Ela não depende apenas da estética da vitória ou da dramaticidade de sua trajetória, mas da coerência entre discurso e prática. Sua integridade escapa à lógica descartável do espetáculo. Ele não era apenas veloz; era consistente naquilo que representava.

Talvez o que falte hoje não sejam talentos, mas referências. Em um ambiente saturado de imagens, a escassez reside nos exemplos. E é por isso que Senna permanece atual: não como nostalgia, mas como parâmetro.

Para uma geração que acompanhava suas corridas nas manhãs de domingo, o aprendizado ia além da competição. Havia ali uma assimilação quase imperceptível de valores como disciplina, responsabilidade, coragem e dignidade diante da pressão. Essa aprendizagem difusa, muitas vezes não verbalizada, constitui a essência da função social de um ídolo.

Há, ainda, uma dimensão que escapa à análise puramente conceitual: a emoção coletiva. O conhecido “pan, pan, pan…” do hino da vitória tornou-se, na memória nacional, indissociável de Senna. Bastavam seus primeiros acordes para que um país inteiro reconhecesse a conquista antes mesmo da confirmação oficial. Da mesma forma, a imagem da bandeira brasileira sendo carregada após a corrida permanece como um dos gestos mais emblemáticos de identificação entre indivíduo e nação. Não era apenas celebração esportiva — era pertencimento em estado visível.

Mesmo fora do Brasil, ao ouvir o hino nacional, essa imagem se impõe com força: a bandeira nas mãos, o corpo exausto, e uma dignidade silenciosa que ultrapassa o momento. É uma reação que não se explica apenas pela memória, mas por aquilo que certas imagens se tornam com o tempo: formas intensas de reconhecimento coletivo.

Nesse ponto, a análise encontra seu limite — e sua confirmação. Como sugere Paul Ricoeur, a identidade não se constrói apenas por narrativas racionais, mas também por aquilo que nos afeta profundamente. O verdadeiro ídolo não apenas orienta; ele mobiliza.

Essa dimensão formativa não ficou restrita ao campo simbólico. No Instituto Ayrton Senna, ela se traduz em ação concreta. Ao transferir para a educação valores como disciplina, responsabilidade e busca por excelência, o instituto realiza uma operação rara: converte admiração em método, inspiração em política pública, exemplo em prática estruturada. Não se trata de preservar uma imagem — essa já está consolidada —, mas de transformar legado em continuidade, alcançando gerações que não vivenciaram diretamente suas conquistas.

Trinta anos depois, a ausência de Senna continua a produzir presença. Não apenas nos registros históricos ou nas homenagens, mas como uma referência silenciosa de conduta. Em um tempo em que a ética frequentemente cede à conveniência, recordar um ídolo que insistia em princípios deixa de ser um gesto nostálgico e se torna um ato de resistência.

No fim, o verdadeiro legado de um ídolo não está no que ele conquistou, mas no que ele ensinou a desejar.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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