
O rebaixamento sistemático de mulheres que ocupam posições de poder econômico, político ou simbólico não pode ser explicado como simples traço de personalidade, grosseria individual ou divergência ideológica pontual. Trata-se de um fenômeno social estruturado, historicamente recorrente, que se intensifica em determinados contextos políticos — em especial naqueles associados à extrema direita contemporânea — e que revela o funcionamento profundo das hierarquias de gênero em sociedades formalmente democráticas.
Mesmo quando essas mulheres reúnem capital econômico, reconhecimento institucional e autoridade formal, elas continuam a ser tratadas como corpos deslocados, presenças provisórias ou ameaças à ordem. Essa persistência do ataque indica que o conflito não se dá no plano da competência, mas no plano da legitimidade simbólica. A mulher no poder não é apenas contestada; ela é frequentemente desautorizada enquanto sujeito político pleno.
A distinção proposta por Kate Manne é central para compreender esse mecanismo. O sexismo opera como narrativa justificadora da desigualdade: ele explica por que homens “naturalmente” liderariam e mulheres “naturalmente” cuidariam. A misoginia, por sua vez, não é mero ódio, mas um sistema de sanção social. Ela entra em ação quando mulheres violam expectativas normativas de gênero, especialmente aquelas relacionadas à deferência, à docilidade e à disponibilidade emocional. Assim, a misoginia funciona como tecnologia disciplinar: não se volta contra todas as mulheres indistintamente, mas contra aquelas que exercem autoridade, impõem limites ou recusam a submissão simbólica.
Essa lógica disciplinar se articula com o que a psicologia social descreveu como sexismo ambivalente. O elogio à “mulher correta”, “feminina” ou “de família” não contradiz a hostilidade dirigida às mulheres que lideram; ao contrário, ambas as atitudes compõem o mesmo sistema. A mulher é aceita desde que permaneça dentro de um roteiro social específico. Quando rompe esse script — ao ocupar cargos de decisão, ao falar com autoridade, ao disputar espaço público — o discurso muda, e o reconhecimento é substituído por punição simbólica.
A extrema direita contemporânea oferece um terreno fértil para a intensificação desses mecanismos porque opera a política como restauração de hierarquias. Como mostram autoras como Nancy Fraser, crises econômicas, culturais e institucionais produzem disputas por reconhecimento e status que frequentemente são capturadas por projetos reacionários. Nesse contexto, o gênero torna-se um marcador privilegiado. A defesa da “ordem”, da “família” e da “tradição” funciona como linguagem moral para justificar desigualdades e conter transformações sociais que ampliaram a presença feminina em espaços historicamente masculinos.
A reação à mulher no poder, nesse cenário, não é apenas política; é profundamente afetiva. Raewyn Connell, ao tratar da masculinidade hegemônica, demonstra que certos modelos de masculinidade se sustentam não apenas pela dominação sobre mulheres, mas também pelo medo permanente de perda de status. Quando mulheres passam a ocupar posições de autoridade sem mediação masculina, esse modelo entra em crise. O ataque misógino emerge, então, como tentativa de restaurar fronteiras simbólicas abaladas.
A combinação, por vezes observada, entre alto poder aquisitivo e baixa escolaridade formal não deve ser lida de maneira simplista, mas à luz da teoria dos capitais de Pierre Bourdieu. Em sociedades onde a legitimidade do poder passa crescentemente pelo domínio da linguagem técnica, pela certificação institucional e pelo reconhecimento público, a autoridade baseada exclusivamente no capital econômico torna-se instável. A mulher que detém capital simbólico — acadêmico, político ou cultural — pode representar uma ameaça específica a sujeitos cuja posição social depende menos do reconhecimento institucional e mais de uma identidade masculina tradicionalmente naturalizada como dominante.
O rebaixamento, nesses casos, opera como estratégia compensatória. Ele se manifesta por desqualificação moral, pela redução da mulher à aparência ou à vida privada, pela patologização de sua fala e pela imposição de critérios móveis de avaliação. Judith Butler ajuda a compreender esse processo ao mostrar que o gênero é uma performance regulada: quem desobedece ao roteiro esperado sofre sanções. A mulher assertiva, firme ou autoritária é punida não porque governa mal, mas porque governa “como não deveria”.
Há ainda um elemento decisivo frequentemente ignorado no debate público: o sentimento de direito à deferência. Parte significativa da literatura contemporânea sobre misoginia mostra que a hostilidade masculina emerge quando mulheres deixam de oferecer validação, cuidado ou subordinação simbólica. A mulher no poder frustra expectativas silenciosas de centralidade masculina. O ataque, nesse sentido, não expressa inferioridade feminina, mas ressentimento diante da recusa feminina em sustentar uma ordem desigual.
Nos ambientes midiáticos e digitais, esse processo ganha escala. A violência simbólica é diluída em humor, ironia ou opinião pessoal, o que contribui para sua normalização. No entanto, seus efeitos são concretos: restringir a presença feminina no espaço público, aumentar o custo subjetivo do exercício do poder e reafirmar a ideia de que liderança feminina é sempre uma exceção suspeita.
O preconceito contra mulheres, especialmente contra aquelas que exercem poder, não é um resíduo arcaico destinado a desaparecer com o tempo. Ele opera, hoje, como ferramenta política ativa. Produz coesão identitária, desloca conflitos estruturais para o campo moral e reinstala hierarquias sob a aparência de valores naturais. Ao rebaixar mulheres, certos projetos políticos não apenas reafirmam a desigualdade de gênero, mas também reforçam uma concepção autoritária de sociedade.
Reconhecer esse padrão é fundamental para que ele deixe de ser tratado como episódio isolado ou conflito de temperamentos. Quando a crítica abandona o campo das ideias e se fixa na deslegitimação do sujeito feminino, estamos diante de um mecanismo social identificável. Nomeá-lo, analisá-lo e expô-lo não elimina o conflito político, mas impede que ele seja naturalizado como algo inevitável. Em um espaço público cada vez mais tensionado, essa lucidez crítica é, por si só, uma forma de resistência.






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