
Rio Preto recebe, entre os dias 20 e 22 de agosto, o IV Congresso Internacional Ninho do Bebê, evento que coloca a primeira infância no centro do debate sobre saúde mental, desenvolvimento e políticas públicas. A proposta é discutir, com base clínica e científica, como os primeiros meses de vida influenciam diretamente o desenvolvimento da criança.
Criado em 2017 pela pediatra Cláudia Boutros de Carvalho, o projeto reúne hoje mais de 60 profissionais e atua no atendimento de famílias em situação de vulnerabilidade, com foco em gestantes e crianças de 0 a 3 anos. “O bebê não pode esperar. A primeira infância é o momento em que tudo está sendo estruturado. Quando a gente intervém cedo, a gente muda o desenvolvimento”, afirma Cláudia.
O congresso traz a Rio Preto uma das principais referências mundiais no tema: a psicanalista franco-brasileira Marie-Christine Laznik, conhecida por seu trabalho com intervenção precoce em bebês com risco de autismo. “Ninguém nasce autista. A gente vai se tornando”, afirma Laznik. Para a especialista, o desenvolvimento do cérebro depende diretamente das interações nos primeiros meses de vida.
Mas o ponto central do evento vai além do diagnóstico. A proposta é diferenciar sinais de risco de um quadro estruturado. Segundo Cláudia, uma criança pode apresentar comportamentos semelhantes ao autismo sem, de fato, ser autista.
“A criança pode estar autista e não ser autista”, destaca. Isso acontece porque alguns quadros clínicos ou condições precoces podem gerar um fechamento relacional que se assemelha ao espectro. Entre os fatores estão dores precoces, como torcicolo congênito, braquicefalia e refluxo gastroesofágico doloroso, além de questões ambientais. “Quando isso é identificado e tratado cedo, a criança pode sair desse lugar”, explica.
Outro ponto destacado é a possibilidade de mudança na expressão genética. “Algumas crianças podem nascer com síndromes em que o sintoma é o autismo. Mas, com intervenção precoce, essa expressão pode mudar”, afirma. Por isso, o foco está na detecção dos primeiros sinais e no encaminhamento rápido. O modelo defendido pelo projeto é de uma clínica transdisciplinar, com atuação integrada de pediatras, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, especialistas em sensório-motricidade, osteopatas e outros profissionais, de acordo com a necessidade de cada criança.
“O bebê exige singularidade. Cada caso precisa ser olhado de forma única”, diz Cláudia. A lógica do trabalho é agir antes da consolidação do quadro. “No autismo, era melhor intervir nos primeiros 100 dias. Quanto mais rápido, melhor”, afirma Laznik . A especialista também resume o conceito com uma frase central: “Diagnóstico não é prognóstico”.
O congresso reúne especialistas do Brasil e do exterior para discutir práticas baseadas em evidências, integrando saúde, educação e assistência social. A proposta é ampliar o acesso à informação qualificada e fortalecer a atuação preventiva.
O evento será realizado no Teatro Paulo Moura, em Rio Preto, entre os dias 20 e 22 de agosto, com programação ao longo de todo o dia e participação presencial e online. As atividades incluem palestras, debates e troca de experiências entre profissionais de diferentes áreas. Informações e inscrições estão disponíveis nos canais oficiais do projeto.






No Comments