Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: em ‘Perdão, lealdade e a política do sertão’, escritor reflete sobre as recentes mudanças de opinião de políticos em Rio Preto

Atualizado em 6 de fevereiro de 2026, 09:45h
O debate recente sobre o IPTU em Rio Preto expôs essa tensão. Quando representantes reconhecem erros após a reação social, surge a pergunta incômoda: o que pesa mais, a fidelidade ao grupo político ou a responsabilidade diante do eleitor?(Foto: ChatGPT)

Por João Paulo Vani

Nas últimas semanas, a Câmara de Rio Preto virou palco de um fenômeno raro na política brasileira: vereadores pedindo desculpas publicamente por um voto e partidos orientando mudança de posição diante da reação da população. O episódio reacendeu uma palavra recorrente no vocabulário político — lealdade. Mas lealdade a quem?

No discurso público, o termo costuma surgir como virtude inquestionável. Espera-se que políticos sejam leais a aliados, partidos e projetos de governo. No entanto, quando a palavra passa a justificar decisões equivocadas ou silenciar críticas, deixa de ser virtude e se transforma em escudo.

Em seu sentido moral clássico, lealdade pressupõe reciprocidade e responsabilidade. Na política, isso deveria significar fidelidade ao mandato recebido e ao interesse público. O problema é que o termo sofre um deslocamento recorrente: a lealdade deixa de ser dirigida ao eleitor e se torna símbolo de adesão pessoal, obediência estratégica ou silêncio conveniente.

O debate recente sobre o IPTU em Rio Preto expôs essa tensão. Quando representantes reconhecem erros após a reação social, surge a pergunta incômoda: o que pesa mais, a fidelidade ao grupo político ou a responsabilidade diante do eleitor?

James Madison já alertava que facções surgem quando interesses particulares se sobrepõem ao bem comum. Hannah Arendt mostrou como essa lógica corrói o espaço público ao substituir a pluralidade pela obediência. Max Weber advertiu para o risco da dominação pessoal travestida de autoridade legítima, e Norberto Bobbio apontou o esvaziamento do Estado de Direito quando a política se converte em instrumento de grupos.

Exemplos de pensadores que têm se dedicado às reflexões sobre política e sociedade não faltam. Byung-Chul Han descreve uma política cada vez mais baseada na gestão da imagem e da atuação pública. Zygmunt Bauman falava da fragilidade dos vínculos e da confiança líquida. Michel Foucault mostrou como o poder opera também pela produção de narrativas, e Yuval Harari lembra que sociedades inteiras se organizam em torno de histórias compartilhadas. A política atual combina todos esses elementos: decisões, reação social, pedidos de desculpas e novas narrativas de compromisso com o povo. O ciclo se repete.

O resultado é a sensação de que o eleitor está sempre um passo atrás. A política oscila entre o pedido de perdão público e a reafirmação privada de alianças e interesses. A lealdade muda de endereço conforme a pressão aumenta.

Esse desvio ganha contornos ainda mais visíveis quando parte da extrema direita transforma símbolos militares em garantias morais de autoridade. Fardas e gestos de força passam a substituir o debate público, confundindo hierarquia com legitimidade.

Em regimes democráticos, porém, o eleito não ocupa um cargo para proteger alianças permanentes, mas para representar interesses coletivos. Sua fidelidade primeira deveria ser ao mandato conferido pelo voto.

Em democracias maduras, a crítica não destrói a política — ela a fortalece. Quando a lealdade é usada para impedir correções, deixa de servir à democracia e serve apenas à manutenção do poder.

E a pergunta permanece: quando se fala em lealdade na política, estamos falando de compromisso com o povo — ou de proteção entre os pares?

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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