
Por João Paulo Vani
Nas últimas semanas, a Câmara de Rio Preto virou palco de um fenômeno raro na política brasileira: vereadores pedindo desculpas publicamente por um voto e partidos orientando mudança de posição diante da reação da população. O episódio reacendeu uma palavra recorrente no vocabulário político — lealdade. Mas lealdade a quem?
No discurso público, o termo costuma surgir como virtude inquestionável. Espera-se que políticos sejam leais a aliados, partidos e projetos de governo. No entanto, quando a palavra passa a justificar decisões equivocadas ou silenciar críticas, deixa de ser virtude e se transforma em escudo.
Em seu sentido moral clássico, lealdade pressupõe reciprocidade e responsabilidade. Na política, isso deveria significar fidelidade ao mandato recebido e ao interesse público. O problema é que o termo sofre um deslocamento recorrente: a lealdade deixa de ser dirigida ao eleitor e se torna símbolo de adesão pessoal, obediência estratégica ou silêncio conveniente.
O debate recente sobre o IPTU em Rio Preto expôs essa tensão. Quando representantes reconhecem erros após a reação social, surge a pergunta incômoda: o que pesa mais, a fidelidade ao grupo político ou a responsabilidade diante do eleitor?
James Madison já alertava que facções surgem quando interesses particulares se sobrepõem ao bem comum. Hannah Arendt mostrou como essa lógica corrói o espaço público ao substituir a pluralidade pela obediência. Max Weber advertiu para o risco da dominação pessoal travestida de autoridade legítima, e Norberto Bobbio apontou o esvaziamento do Estado de Direito quando a política se converte em instrumento de grupos.
Exemplos de pensadores que têm se dedicado às reflexões sobre política e sociedade não faltam. Byung-Chul Han descreve uma política cada vez mais baseada na gestão da imagem e da atuação pública. Zygmunt Bauman falava da fragilidade dos vínculos e da confiança líquida. Michel Foucault mostrou como o poder opera também pela produção de narrativas, e Yuval Harari lembra que sociedades inteiras se organizam em torno de histórias compartilhadas. A política atual combina todos esses elementos: decisões, reação social, pedidos de desculpas e novas narrativas de compromisso com o povo. O ciclo se repete.
O resultado é a sensação de que o eleitor está sempre um passo atrás. A política oscila entre o pedido de perdão público e a reafirmação privada de alianças e interesses. A lealdade muda de endereço conforme a pressão aumenta.
Esse desvio ganha contornos ainda mais visíveis quando parte da extrema direita transforma símbolos militares em garantias morais de autoridade. Fardas e gestos de força passam a substituir o debate público, confundindo hierarquia com legitimidade.
Em regimes democráticos, porém, o eleito não ocupa um cargo para proteger alianças permanentes, mas para representar interesses coletivos. Sua fidelidade primeira deveria ser ao mandato conferido pelo voto.
Em democracias maduras, a crítica não destrói a política — ela a fortalece. Quando a lealdade é usada para impedir correções, deixa de servir à democracia e serve apenas à manutenção do poder.
E a pergunta permanece: quando se fala em lealdade na política, estamos falando de compromisso com o povo — ou de proteção entre os pares?






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