
Por João Paulo Vani
Há crimes que nos chocam pela barbárie que revelam. A tortura de um animal indefeso não é um ato isolado de violência: é um sintoma social. Um indício de que algo falhou antes — muito antes da agressão. Falhou a educação, falhou o limite, falhou a mediação adulta que deveria ter interrompido o caminho da brutalidade ainda nos seus primeiros passos.
No caso recente que mobilizou o país, do cão Orelha, esse dado é impossível de ignorar. Os agressores não vêm da margem social, da exclusão extrema ou da ausência absoluta de recursos. São jovens de classes abastadas, filhos da elite econômica, criados em ambientes de conforto material, acesso a boas escolas, viagens e oportunidades. Isso desmonta uma narrativa conveniente segundo a qual a violência seria produto exclusivo da pobreza ou da falta de instrução formal. Como sabemos, não é.
Hannah Arendt já advertia que o mal não precisa de monstros; basta a suspensão do juízo moral. Quando jovens crescem sem aprender a lidar com frustração, limite e responsabilidade, o resultado não é liberdade, mas um vazio ético silencioso — e perigosamente fértil.
Algo semelhante aparece em Zygmunt Bauman. A liquefação dos vínculos produziu adultos que temem exercer autoridade e pais que desejam ser amigos antes de serem referências. Educar, porém, exige dizer não. Exige frustrar. Exige sustentar o desconforto de ser, em certos momentos, impopular.
A violência contra animais não é um detalhe irrelevante. Estudos das áreas de Psicologia e Criminologia mostram que ela frequentemente funciona como marcador precoce de violências mais amplas. Sigmund Freud já alertava para a ideia de que a civilização depende da contenção dos impulsos destrutivos. Quando essa contenção falha, o instinto de dominação deixa de encontrar resistência.
Por isso, não é exagero afirmar: quem é capaz de torturar um animal indefeso revela uma relação profundamente adoecida com a alteridade. Hoje é o animal; amanhã, em determinadas circunstâncias, podem ser os mais frágeis da hierarquia social — crianças, idosos, pessoas com deficiência. No fim desta escala de brutalidade encontram-se os feminicídios, afinal, a crueldade escolhe suas vítimas pela vulnerabilidade.
Assim, é desolador pensar que essa não é a primeira vez que o país se depara com esse tipo de violência. Há quase trinta anos, o indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos foi incendiado enquanto dormia em um ponto de ônibus, em Brasília, por jovens que declararam ter agido “por divertimento”. Também ali a vítima encontrava-se em situação de vulnerabilidade absoluta; o espaço era público; os agressores pertenciam a camadas privilegiadas da sociedade.
O que esse intervalo de décadas revela não é progresso, mas estagnação moral. Seguimos naturalizando a desumanização daqueles que vivem nas ruas, tratados como corpos disponíveis, invisíveis ou descartáveis. O elo entre esses episódios não está na identidade da vítima, mas na lógica da violência: a transformação do outro — humano ou não — em objeto. Uma sociedade que não protege os mais fracos, de qualquer raça ou espécie, fracassa em sua tarefa civilizatória mais elementar.
Há ainda um elemento cultural incontornável: a forma como lidamos, no Brasil, com a ideia de coletividade. Consolidou-se entre nós a noção distorcida de que o que é público “não é de ninguém”. Daí o vandalismo cotidiano, o descaso com o patrimônio comum, a dificuldade de reconhecer o que é de todos como algo digno de cuidado.
As agressões ao Orelha tornam essa confusão evidente. Ele era um animal comunitário — pertencia a todos, e não a ninguém. Sua existência dependia de um pacto mínimo de convivência. A violência praticada contra ele revela não apenas crueldade individual, mas a incapacidade de compreender o comum como limite ético. Ainda assim, é preciso afirmar sem ambiguidade: ainda que fosse um animal de rua, nada legitimaria a agressão, uma vez que a dignidade não nasce da posse.
Em contextos de privilégio, a impunidade assume um papel particularmente perverso — não porque produza o mal, mas porque o desinibe. A convicção de que a família intervirá, de que advogados agirão, de que o sistema será condescendente cria um ambiente de autorização simbólica para a violência. O gesto cruel não nasce da impunidade, mas é nela que encontra o terreno fértil para poder se realizar, sem freios.
Esse mecanismo é explicado por Michel Foucault, ao mostrar que as sociedades modernas se organizam menos pela punição visível e mais pela internalização da vigilância. Aprende-se a conter o gesto pela incorporação do limite. Quando certos grupos passam a viver fora desse campo — protegidos pelo privilégio ou pelo capital social — a autovigilância se dissolve. Não é o mal que surge; é o freio que desaparece.
Paradoxalmente, tal dissolução convive com uma exposição extrema. O desdobramento do caso nos noticiários e redes sociais revela a lógica descrita por Guy Debord. Na sociedade do espetáculo, a violência é exibida, compartilhada, comentada, transformada em imagem circulável. O risco é que o horror perca densidade ética e se converta em indignação consumível.
Dessa forma, o problema não está em falar sobre o caso, mas em confundir visibilidade com justiça. O espetáculo cria a sensação de resposta quando, na prática, pode funcionar como álibi para a ausência de consequências reais. Como advertiu Jean Baudrillard, no regime do simulacro, a representação não apenas mostra a realidade: ela a substitui — a indignação circula, a imagem se multiplica, mas a ação concreta se esvazia. É justamente contra essa lógica que já reagia Cesare Beccaria ao afirmar que não é a crueldade da pena, mas a certeza da punição que inibe o crime. Sem educação moral, sem limites claros e sem punição proporcional e certa, a vigilância se reduz à imagem — e a imagem, convertida em simulacro, altera, raramente, a realidade que finge expor.
É por isso que a discussão sobre punição precisa ser enfrentada sem hipocrisia. Punir não é vingança; é pedagogia social. A responsabilização — inclusive de adolescentes, nos marcos da lei — é parte essencial do processo educativo. Sem ela, não há aprendizado coletivo nem proteção efetiva.
Educar é difícil. Impor limites cansa. Assumir responsabilidade dói. Mas a alternativa é muito pior: colaborar para a manutenção de uma sociedade em que até a crueldade se torna um privilégio, chamado de impunidade.






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