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#ColunaDoVani: Escritor reflete sobre o amigo Clinton Craddock, professor americano que vivia em Rio Preto e morreu após buscar socorro médico por 4 dias em uma UPA da cidade

Atualizado em 23 de janeiro de 2026, 12:40h
Clinton Craddock em foto no Facebook: professor vivia em Rio Preto e morreu no último domingo, dia 18 de janeiro.

Por João Paulo Vani

A Medicina que esqueceu o humano

A morte de Clinton Craddock, causada por uma infecção no apêndice — condição simples, conhecida e amplamente tratável — não pode ser compreendida apenas como uma falha clínica. Ela se impõe como um acontecimento moral. Clinton não falece apenas de uma doença; perece em um sistema médico que, progressivamente, deslocou o cuidado do centro de sua prática e passou a operar segundo lógicas de eficiência, rentabilidade e gestão de risco institucional.

A medicina contemporânea vive um paradoxo: nunca dispôs de tantos recursos tecnológicos e, ao mesmo tempo, raramente esteve tão distante da experiência humana do adoecimento. Byung-Chul Han observa que vivemos sob o regime do desempenho, no qual tudo deve ser mensurável, rápido e produtivo. O tempo da escuta, da dúvida clínica e da atenção ao detalhe torna-se improdutivo — e, portanto, descartável. O paciente passa a ser um fluxo; o médico, um operador.

Ivan Illich denunciou esse processo ao falar dos efeitos iatrogênicos da medicina moderna — danos gerados não pela doença, mas pela própria prática médica e pela organização dos sistemas de saúde. Quando o cuidado se converte em protocolo e a relação clínica em procedimento administrativo, a morte evitável deixa de ser exceção e é efeito colateral aceitável.

Essa lógica encontra terreno fértil na crise da formação médica. A expansão desordenada de cursos, frequentemente orientados por critérios mercadológicos, compromete aquilo que Georges Canguilhem considerava central à medicina: a capacidade de julgar o normal e o patológico a partir da singularidade do vivente. Forma-se o técnico, mas não o clínico; certifica-se a competência formal, mas não a responsabilidade ética. Pierre Bourdieu já advertia que, quando um campo perde sua autonomia, o capital econômico passa a determinar seus valores simbólicos.

Michel Foucault mostrou como a clínica moderna se organiza por dispositivos de poder que classificam, hierarquizam e silenciam. Hoje, esses dispositivos operam articulados a métricas de produtividade, metas e algoritmos de gestão. O erro que daí decorre não é apenas técnico; é estrutural. Giorgio Agamben diria que a vida, nesse contexto, aproxima-se perigosamente da condição de vida nua: protegida apenas enquanto funcional, descartável quando se torna custo.

A precarização das condições de trabalho aprofunda essa crise. Jornadas exaustivas, múltiplos vínculos e supervisão insuficiente criam um ambiente no qual o erro deixa de ser exceção. Hannah Arendt chamou isso de banalidade do mal; aqui, trata-se da banalidade da falha. Não há intenção de causar dano, mas há um sistema que impede o pensamento, a pausa e o cuidado.

Clinton Craddock, nesse texto, é mais do que um nome próprio. Ele se torna símbolo de uma vida que atravessou um sistema incapaz de reconhecer a urgência do simples. Emmanuel Levinas lembrava que a ética nasce no rosto do outro, na responsabilidade infinita que o outro nos impõe. Quando uma apendicite evolui para óbito, não é apenas o diagnóstico que falha; é a recusa estrutural de assumir essa responsabilidade.

Manifesto necessário

Não aceitaremos mais que mortes evitáveis sejam chamadas de fatalidades.

Não aceitaremos que a formação médica seja tratada como produto educacional.

Não aceitaremos que protocolos substituam o juízo clínico e a eficiência econômica valha mais do que a vida.

Não aceitaremos uma medicina que protege instituições antes de proteger pessoas.

Lembrar Clinton Craddock é interromper o fluxo automático de um sistema adoecido. É exigir uma medicina que volte a reconhecer o humano como seu princípio e seu fim. Tudo o que se afasta disso — por mais moderno, tecnológico ou eficiente que pareça — é fracasso travestido de progresso.

The Medicine That Forgot the Human

The death of Clinton Craddock, caused by an infection of the appendix—a simple, well-known, and widely treatable condition—cannot be understood merely as a clinical failure. It must be read as a moral event. Clinton did not die solely from illness; he died within a medical system that has gradually displaced care from the center of its practice and reorganized itself around efficiency, profitability, and institutional risk management.

Contemporary medicine lives with a paradox: never has it had so many technological resources, and rarely has it been so distant from the lived experience of illness. As Byung-Chul Han observes, we inhabit a performance-driven society in which everything must be measurable, fast, and productive. Time for listening, clinical uncertainty, and careful attention becomes unproductive—and therefore expendable. The patient becomes a throughput; the physician, an operator.

Ivan Illich warned of this trajectory decades ago when he described the iatrogenic effects of modern medicine—harms generated not by disease itself, but by medical practice and the organization of healthcare systems. When care is reduced to protocol and the clinical relationship to an administrative process, preventable death ceases to be an anomaly and becomes an acceptable side effect.

This logic finds fertile ground in the crisis of medical education. The unchecked expansion of medical schools, often driven more by market incentives than by serious academic commitments, undermines what Georges Canguilhem considered central to medicine: the capacity to judge the normal and the pathological in relation to the singularity of living beings. Technical competencies are certified, but clinical judgment is eroded; diplomas multiply, while ethical responsibility thins. As Pierre Bourdieu warned, when a professional field loses its autonomy, economic capital begins to dictate symbolic value—and medicine is no exception.

Michel Foucault showed how modern clinical knowledge is structured through mechanisms of power that classify, hierarchize, and silence. Today, these mechanisms operate alongside productivity metrics, managerial targets, and algorithmic decision-making. The resulting failure is not merely technical; it is structural. Under such conditions, Giorgio Agamben would argue, life approaches the status of bare life: protected only while functional, disposable once it becomes a cost.

The precariousness of working conditions further deepens this crisis. Exhaustive shifts, multiple employment arrangements, insufficient supervision, and overwhelmed institutions create an environment in which error is no longer exceptional. Hannah Arendt described the banality of evil as the suspension of critical thought within routine. In medicine, this takes the form of a banality of failure—not because professionals intend harm, but because the system deprives them of the time, space, and conditions required to think and to care.

In this text, Clinton Craddock is more than a proper name. He becomes the symbol of a life that passed through a system incapable of recognizing the urgency of the simple. Emmanuel Levinas reminded us that ethics begins in the face of the Other, in the infinite responsibility the Other places upon us. When appendicitis progresses to death, what fails is not only diagnosis; it is the structural refusal to assume that responsibility.

Manifesto

We refuse to accept preventable deaths being labeled as fate.

We refuse to accept medical education treated as a commercial product.

We refuse to accept protocols replacing clinical judgment and economic efficiency outweighing human life.

We refuse a medicine that protects institutions before protecting people.

To remember Clinton Craddock is to interrupt the automatic momentum of a system that has itself become ill. It is to demand a medicine that once again recognizes the human as both its origin and its purpose. Everything that departs from this—no matter how modern, technological, or efficient it may appear—is failure disguised as progress.

Abaixo, post publicado no Blog do Beck, no Instagram, pra você entender melhor a reflexão do escritor João Paulo Vani.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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