Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: ‘O espetáculo do luxo e o que ele não diz’

Atualizado em 9 de janeiro de 2026, 14:10h
Uma leitura sociológica e literária da ostentação contemporânea, na qual o brilho das imagens convive com zonas de silêncio e formas sutis de solidão. (Imagem gerada pelo Gemini)

Por João Paulo Vani

Circulou recentemente, nas redes sociais, a imagem de uma grande celebridade do esporte posando ao lado de três objetos extraordinários: um jato executivo de alto padrão, um helicóptero moderno e uma réplica cinematográfica de um automóvel de super-herói. O conjunto, avaliado em centenas de milhões de reais, foi apresentado como celebração pública de conquista, êxito e realização pessoal. Mais do que observar a cena em sua superfície, interessa-me lê-la como documento de época, como síntese simbólica de uma sociedade que transforma as mais diversas formas de riqueza material em narrativa de identidade e pertencimento. Não se trata de especular sobre a vida íntima do protagonista da imagem, nem de atribuir estados emocionais ou psicológicos a uma pessoa real; trata-se, antes, de interpretar o fenômeno social que a cena ajuda a tornar visível.

Desde o século XIX, com Thorstein Veblen, a sociologia observa o consumo como linguagem social. O consumo que busca ser visto, que afirma distinção e prestígio, que converte objetos em marcadores de posição na hierarquia simbólica. Guy Debord, por sua vez, descreveu a sociedade do espetáculo como aquela em que as imagens passam a organizar a própria experiência humana. O jato executivo, o helicóptero e o automóvel inspirado na ficção não são apenas bens materiais: eles compõem uma autobiografia imagética, uma narrativa pública que fala de poder, possibilidades ilimitadas e vida fora da regra comum. À luz de Pierre Bourdieu, poderíamos dizer que ali se acumula capital simbólico: não apenas riqueza mensurável, mas a legitimação social de um lugar de exceção.

O episódio também ilumina um paradoxo frequente nas sociedades contemporâneas: quanto maior for a visibilidade, menor a garantia de vínculo. Zygmunt Bauman descreveu esse fenômeno como liquidez social — relações numerosas, mas frágeis; redes extensas, mas pouco duráveis. Celebridades globais vivem sob atenção constante, agendas saturadas, contratos, compromissos, narrativas publicitárias e escrutínio permanente. A pergunta relevante, portanto, não é com quantas pessoas alguém convive, mas qual é a qualidade da reciprocidade possível em relações atravessadas por fama, expectativa e assimetria. Richard Sennett argumenta que a lógica do desempenho contínuo corrói a estabilidade narrativa da vida e transforma o indivíduo em personagem. A fronteira entre pessoa e persona pública pode se tornar tênue — e, às vezes, exaustiva.

Nada disso autoriza afirmar, como fato, que alguém nessa posição é solitário. Do ponto de vista acadêmico-analítico, o que se pode dizer é que pesquisas sociológicas evidenciam que regimes de visibilidade extrema frequentemente se associam a formas discretas de isolamento: a experiência de ser permanentemente visto, mas raramente reconhecido em sua dimensão ordinária, cotidiana, não performática. Some-se a isso um elemento de gênero. O universo do sucesso masculino de alto desempenho valoriza força, invulnerabilidade, controle e capacidade de consumo. Ostentar máquinas raras e símbolos de heroísmo pop pode funcionar como blindagem identitária, como afirmação de invencibilidade. Byung-Chul Han, ao falar da sociedade do cansaço, lembra que vivemos sob o imperativo de performar sempre, ocultando a dúvida, a tristeza e a vulnerabilidade. A cena grandiosa protege — mas também restringe o espaço para admitir fragilidade.

A literatura, muitas vezes, antecipou essas tensões. Em “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, mansões, festas e automóveis reluzentes orbitam um personagem cercado de abundância e, ao mesmo tempo, separado de si. Machado de Assis criou personagens socialmente privilegiados que revelam, por meio da ironia, o abismo entre o que exibem e o que sentem. Essas figuras não descrevem pessoas reais, mas nos ajudam a compreender arquétipos simbólicos reaparecendo em diferentes épocas e linguagens. A cena contemporânea de ostentação dialoga com essa tradição: grandes objetos, grandes espaços, grande visibilidade — e uma pergunta silenciosa sobre quem, de fato, habita tudo isso.

Mais do que sobre o indivíduo retratado, a imagem diz muito sobre a cultura que a produz e consome. Fala de um tempo que transforma sucesso econômico em moralidade pública, que confunde felicidade com escala de patrimônio e que oferece objetos extraordinários como promessa de sentido existencial. Não é necessário diagnosticar biografias para reconhecer que essas narrativas sedutoras — e por vezes cansativas — funcionam também como espelho coletivo. Nele, vemos uma sociedade que celebra seus céus privados, seus voos exclusivos e suas máquinas fantásticas, enquanto ainda tenta compreender, em silêncio, as formas contemporâneas de solidão que coexistem com o espetáculo.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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