Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: O vermelho que nos sustenta

Atualizado em 2 de janeiro de 2026, 12:50h
Imagem gerada por IA.

Por João Paulo Vani

Entre o alívio do novo ano e a esperança que renasce, aprendemos que não recomeçamos sozinhos — e que também podemos ser o vermelho que dá sentido às histórias de quem amamos.

Há algo de profundamente humano no instante em que o calendário vira. Não é somente a mudança formal de um número, nem o gesto protocolar de abrir uma nova agenda ou redefinir metas. A virada do ano opera como um dispositivo simbólico: suspende o cansaço acumulado, oferece um breve intervalo ao peso do tempo e nos concede a sensação — quase física — de que é possível recomeçar.

Esse alívio não é ingênuo. Ele nasce da percepção de que atravessamos mais um ciclo e sobrevivemos às suas dores, suas ausências, suas tarefas inacabadas. Em alguma medida, o reinício do calendário funciona como uma respiração profunda: o corpo desacelera, a mente se reorganiza e o coração, ainda que marcado, encontra espaço para uma esperança renovada.

Mas recomeçar, ao contrário do que costumamos imaginar, não é um ato solitário.

Grande parte desse impulso de renovação depende da rede de afetos que nos sustenta — pessoas que, de maneiras distintas, seguram nossas bordas quando a vida tenta nos desfiar. São aquelas presenças que não nos prometem milagres, mas oferecem companhia; que não eliminam o peso das escolhas, mas caminham ao lado enquanto aprendemos a carregá-las.

A virada do ano, então, não nos convoca somente a projetar desejos para o futuro. Ela nos chama a reconhecer quem esteve conosco no trajeto — e, sobretudo, a decidir quem desejamos ser para os outros.

Há um momento marcante no filme I Am Sam, com Sean Penn, que ilumina essa dimensão afetiva do recomeço. Quando o personagem de Penn, Sam Dawson, conversa com Randy — a mulher que será a mãe adotiva de Lucy — ele diz que ela é o “vermelho das pinturas” da menina. O vermelho, ali, é mais que uma cor: é intensidade, sentido, vida que pulsa no quadro.

Essa metáfora atravessa silenciosamente o filme — e talvez atravesse nossas vidas nessa virada de ano.

Ser o “vermelho das pinturas” de alguém é reconhecer que nossa presença tem impacto nos mundos que compartilhamos. Às vezes, somos quem oferece abrigo; outras vezes, quem recebe. Há anos em que precisamos de mãos firmes ao nosso redor e anos em que somos nós as mãos que, estendidas, dão sustentação.

Entrar em um novo ano, portanto, não é somente desejar prosperidade, saúde ou conquistas. É assumir, com discrição e coragem, o compromisso ético de sermos pessoas melhores: mais atentas, mais generosas, mais disponíveis para reparar e acolher. É compreender que a verdadeira renovação não acontece na folha do calendário, mas nos gestos cotidianos que sustentam nossos vínculos.

Que no ciclo que começa possamos estar cercados de pessoas que nos ajudem a respirar quando o mundo apertar — e que saibamos, com igual delicadeza, ser o vermelho nas pinturas daqueles que caminham ao nosso lado.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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