
Por João Paulo Vani
Entre o alívio do novo ano e a esperança que renasce, aprendemos que não recomeçamos sozinhos — e que também podemos ser o vermelho que dá sentido às histórias de quem amamos.
Há algo de profundamente humano no instante em que o calendário vira. Não é somente a mudança formal de um número, nem o gesto protocolar de abrir uma nova agenda ou redefinir metas. A virada do ano opera como um dispositivo simbólico: suspende o cansaço acumulado, oferece um breve intervalo ao peso do tempo e nos concede a sensação — quase física — de que é possível recomeçar.
Esse alívio não é ingênuo. Ele nasce da percepção de que atravessamos mais um ciclo e sobrevivemos às suas dores, suas ausências, suas tarefas inacabadas. Em alguma medida, o reinício do calendário funciona como uma respiração profunda: o corpo desacelera, a mente se reorganiza e o coração, ainda que marcado, encontra espaço para uma esperança renovada.
Mas recomeçar, ao contrário do que costumamos imaginar, não é um ato solitário.
Grande parte desse impulso de renovação depende da rede de afetos que nos sustenta — pessoas que, de maneiras distintas, seguram nossas bordas quando a vida tenta nos desfiar. São aquelas presenças que não nos prometem milagres, mas oferecem companhia; que não eliminam o peso das escolhas, mas caminham ao lado enquanto aprendemos a carregá-las.
A virada do ano, então, não nos convoca somente a projetar desejos para o futuro. Ela nos chama a reconhecer quem esteve conosco no trajeto — e, sobretudo, a decidir quem desejamos ser para os outros.
Há um momento marcante no filme I Am Sam, com Sean Penn, que ilumina essa dimensão afetiva do recomeço. Quando o personagem de Penn, Sam Dawson, conversa com Randy — a mulher que será a mãe adotiva de Lucy — ele diz que ela é o “vermelho das pinturas” da menina. O vermelho, ali, é mais que uma cor: é intensidade, sentido, vida que pulsa no quadro.
Essa metáfora atravessa silenciosamente o filme — e talvez atravesse nossas vidas nessa virada de ano.
Ser o “vermelho das pinturas” de alguém é reconhecer que nossa presença tem impacto nos mundos que compartilhamos. Às vezes, somos quem oferece abrigo; outras vezes, quem recebe. Há anos em que precisamos de mãos firmes ao nosso redor e anos em que somos nós as mãos que, estendidas, dão sustentação.
Entrar em um novo ano, portanto, não é somente desejar prosperidade, saúde ou conquistas. É assumir, com discrição e coragem, o compromisso ético de sermos pessoas melhores: mais atentas, mais generosas, mais disponíveis para reparar e acolher. É compreender que a verdadeira renovação não acontece na folha do calendário, mas nos gestos cotidianos que sustentam nossos vínculos.
Que no ciclo que começa possamos estar cercados de pessoas que nos ajudem a respirar quando o mundo apertar — e que saibamos, com igual delicadeza, ser o vermelho nas pinturas daqueles que caminham ao nosso lado.






No Comments