
Por João Paulo Vani
Se alguém dissesse, no início dos anos 2000, que o mundo assistiria a atentados transmitidos ao vivo, guerras sem fim claramente definido uma pandemia global capaz de esvaziar cidades inteiras, crises climáticas sucessivas e civis transformados em moeda de negociação política, a reação provável seria incredulidade. Ainda assim, foi exatamente isso que aconteceu. E talvez o aspecto mais inquietante não seja o fato de tudo isso ter ocorrido, mas a rapidez com que aprendemos a conviver com esses acontecimentos como se fossem parte natural da paisagem.
Desde o 11 de setembro, o medo deixou de ser somente uma reação emocional e passou a organizar a vida pública. Lentamente, a política foi se transformando em gestão de riscos, protocolos de segurança, decisões emergenciais. A ideia de exceção — algo provisório, extremo, fora da regra — foi se tornando rotina. O que antes chocava passou a ser absorvido como mais um item do noticiário. Mortes distantes viraram números; conflitos prolongados, pano de fundo; imagens de destruição, quase decoração de tela.
A pandemia aprofundou essa sensação de esgotamento. De repente, a vida passou a ser medida por gráficos, curvas e estatísticas, enquanto a morte, paradoxalmente, parecia perder espaço para a próxima atualização urgente. Não houve tempo para elaborar o luto coletivo. Seguimos adiante, cansados, acelerados, saturados de informação e carentes de sentido. A sensação de suspensão — de que algo muito grave estava acontecendo — coexistia com a exigência de continuar funcionando.
Nesse cenário, também ganhou força uma guinada global a discursos mais duros e excludentes. Em muitos países, a política passou a ser estruturada a partir da ideia de proteção: proteger “os nossos” contra “os outros”, proteger fronteiras, identidades, valores supostamente ameaçados. O medo virou identidade; o ressentimento, projeto político. Direitos passaram a ser vistos, em certos discursos, como obstáculos; a complexidade, como fraqueza; o diálogo, como ingenuidade.
Talvez por isso tudo pareça, ao mesmo tempo, absurdo e normal. A literatura já havia intuído esse paradoxo há muito tempo: é perfeitamente plausível que o improvável aconteça. O problema começa quando o improvável deixa de causar espanto. Quando o extraordinário se repete tanto que já não interrompe o fluxo da vida cotidiana. Quando tudo pode acontecer, quase nada nos detém para pensar.
O conflito recente no Oriente Médio, com civis e reféns transformados em símbolos e instrumentos, expôs dolorosamente esse esgotamento moral. Não se trata somente de tomar partido, mas de perceber como a vida humana vai sendo empurrada para segundo plano, substituída por narrativas, estratégias e disputas de poder. Algumas mortes mobilizam comoção imediata; outras desaparecem rapidamente do campo da atenção.
O risco maior do nosso tempo talvez não seja a violência em si — que sempre acompanhou a história humana —, mas a adaptação silenciosa a ela. A capacidade de aceitar o intolerável, de seguir adiante sem interrupção, de tratar o trágico como rotina. Recuperar o espanto, essa habilidade simples e rara de parar, julgar e dizer “isso não pode ser assim”, talvez seja hoje um pequeno gesto de resistência.
E, quem sabe, se o primeiro quarto do século XXI já nos treinou demais para o choque, a disputa e a brutalidade, possamos desejar algo diferente para os próximos 25 anos. Que a representação criativa do mundo venha com menos “macetando” e “sentadas” e com mais beijos no cabelo, cheiros no cangote e acolhidas junto ao peito. Menos espetáculo da violência e mais pedagogia do afeto. Por certo, não resolverá tudo — mas pode ser um bom começo.






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