
Por João Paulo Vani
Nota inicial: As reflexões a seguir tratam de um movimento cultural amplo e não se referem a nenhuma obra, pessoa ou produção específica, mas a tendências gerais observadas no mercado editorial e audiovisual contemporâneo.
Nos últimos anos, o mercado cultural — editoras, plataformas de streaming e grandes estúdios — tem investido intensamente em biografias e cinebiografias de figuras controversas. Criminosos, gurus charlatães, empresários inescrupulosos, políticos corruptos e personagens que violaram normas éticas básicas passaram a ocupar um lugar privilegiado na narrativa audiovisual contemporânea. Longe de ser um fenômeno marginal, esse movimento mundial nos obriga a refletir sobre os motivos pelos quais estamos sempre tão interessados em histórias de pessoas que, à primeira vista, não deveriam ser admiradas. Como lembra Paul Ricoeur, toda narrativa, mesmo quando lida como entretenimento, carrega um potencial de formação e deformação do imaginário social.
A vida de quem rompe normas éticas sempre despertou fascínio. Desde a tragédia grega até os romances modernos, o público parece atraído por personagens que encarnam a transgressão. Hoje, essa curiosidade surge moldada por técnicas sofisticadas de storytelling e por estratégias de mercado que transformam figuras moralmente questionáveis em produtos culturais altamente lucrativos. O problema é que, quando a transgressão vira entretenimento, o risco de suavizar seus efeitos também cresce. As fronteiras entre explicar e justificar podem se diluir, e nem sempre percebemos quando deixamos de olhar criticamente para torcer por alguém que não merece torcida — movimento que, como alertou Susan Sontag ao tratar da estética da dor, pode anestesiar a sensibilidade moral do espectador.
Narrativas que exploram vidas controversas não são, em si, moralmente condenáveis. A arte nunca teve obrigação de funcionar como manual de virtude. Mas existe um ponto delicado quando criminosos e manipuladores são apresentados com estética sedutora, trilha sonora envolvente e uma aura de “gênio incompreendido”. Dependendo das escolhas narrativas — enquadramentos, edição, condução dramática —, o espectador é deslocado da posição de observador para um lugar de empatia acrítica. É o que alguns teóricos chamam de moral disengagement, um afastamento das consequências éticas em favor do impacto emocional da história. Michel Foucault, ao discutir as formas de poder e subjetivação, já alertava que narrativas são dispositivos que podem produzir modos de ver e de sentir — e, portanto, modos de normalizar.
A indústria cultural, por sua vez, opera com uma lógica própria. Histórias reais com forte carga emocional prendem a atenção, geram debate e produzem engajamento. E, dentro desse sistema, personagens imperfeitos acabam oferecendo mais audiência do que modelos de virtude. Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade líquida, observa que vivemos numa época em que figuras ambíguas ou transgressoras geram mais “aderência emocional” do que personagens marcados pela previsibilidade ética. Mas, ao enfatizar o brilhantismo estratégico de fraudadores, o carisma de líderes abusivos ou a audácia de criminosos, arrisca-se gerar uma pedagogia involuntária: a ideia de que não importa o que você tenha feito, desde que sua narrativa seja interessante.
Apesar desses riscos, biografias e cinebiografias de figuras antiéticas têm um potencial importante: o de funcionar como advertências. Quando bem conduzidas, revelam falhas institucionais, mecanismos de manipulação, abusos de poder e contextos sociais que permitiram tais comportamentos. A narrativa deixa de ser espetáculo e se torna diagnóstico — uma operação que lembra o gesto de Walter Benjamin ao falar da importância de “escovar a história a contrapelo”, revelando as rachaduras onde o poder se oculta. Nesse sentido, contar essas histórias não é um problema; o problema é contá-las de forma que obscureça o dano causado ou glamourize a violência que produziu tantos sofrimentos.
Existem caminhos éticos possíveis para narrar vidas controversas. É fundamental contextualizar os prejuízos reais decorrentes das ações dessas figuras, evitar a estetização do mal, dar espaço às vozes das vítimas e inserir elementos sociológicos e históricos que permitam compreender o fenômeno em sua complexidade. Mais do que instruir o público, trata-se de oferecer condições para que ele desenvolva senso crítico — em sintonia com a defesa freireana de uma consciência que não consuma passivamente, mas interrogue o mundo. Uma narrativa interessante não é, necessariamente, uma narrativa edificante.
Em última instância, a questão não é se devemos ou não consumir histórias sobre pessoas que não são exemplos éticos. A resposta é sim — desde que o façamos com consciência crítica. Essas narrativas nos ajudam a compreender a sociedade, seus vazios normativos, suas desigualdades e suas fragilidades. Revelam, como observou Hannah Arendt, que o mal raramente é monstruoso; muitas vezes é banal, cotidiano, burocrático. No entanto, é preciso manter vigilância para não transformar criminosos em celebridades, nem danos sociais profundos em mero entretenimento. Produções sobre figuras moralmente questionáveis podem contribuir para iluminar aquilo que precisa ser corrigido e para fortalecer nossa compreensão coletiva sobre responsabilidade e ética. Quando a narrativa se orienta por esse horizonte, ela deixa de ser um espelho que glamouriza a sombra e é uma ferramenta de reflexão — capaz de nos alertar, de nos educar e, sobretudo, de nos lembrar que interesse narrativo não equivale a grandeza moral






No Comments