Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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#ColunaDoVani: ‘O relógio íntimo que cada um carrega’

Atualizado em 21 de novembro de 2025, 12:33h
Imagem meramente ilustrativa criada por IA.

Por João Paulo Vani

Jackie, um japonês de 40 anos que insiste em se declarar um jovem de 28, virou manchete e, como era previsível, também virou meme, diagnóstico amador e consulta gratuita ao tribunal infalível das redes sociais. Mas seu gesto — tão simples quanto provocador — abre uma fresta por onde vemos algo maior: essa fricção permanente entre o tempo social e o tempo íntimo, entre o que somos no papel e o que sentimos ao abrir os olhos de manhã.

Zygmunt Bauman, atento às dissoluções de nosso tempo, diria que até o calendário derrete nas mãos de uma modernidade líquida. Já Judith Butler poderia sugerir que a idade, assim como o gênero, também se performa: uma coreografia diária entre boletos, expectativas sociais e playlists improváveis. Donna Haraway, crítica implacável dos essencialismos, perguntaria qual é mesmo o benefício coletivo de tratar a idade como essência incontornável. E Axel Honneth, apóstolo do reconhecimento, talvez defendesse Jackie: querer ser percebido como se sente não deixa de ser um ato de autorrespeito.

A psicanálise, sempre íntima daquilo que desafina na alma, lembraria que o tempo subjetivo raramente coincide com o cronológico. Freud diria que o inconsciente não tem calendário. Winnicott falaria do “self verdadeiro”, que resiste às imposições externas. E Lacan, num de seus giros, observaria que a idade é somente um significante imposto — e que cada sujeito encontra maneiras particulares de negociar sua relação com o “outro”.

Mas nenhuma teoria, por mais robusta, vence a força das histórias contadas pela vida. E lembro, então, do relato que minha avó repetia com um brilho maroto nos olhos. Ela tinha uma tia que, ao chegar ao médico, declarou ter 62 anos. O médico, porém, reconheceu de pronto o sobrenome: havia feito Tiro de Guerra com um dos filhos dela — e já tinha ultrapassado, há um bom tempo, aquela idade modesta que a senhora reivindicava. Mas a tia manteve-se fiel à própria narrativa. A consulta prosseguiu com naturalidade, no pacto silencioso que só existe quando a realidade bate às portas, mas ninguém quer atender. A idade, para ela, era um recinto soberano. E quem seria o médico para invadir?

Eu, por minha vez, não participo dessas negociações delicadas com o calendário. Não escondo anos, não invento juventudes, não disputo com o espelho. Mas, justiça seja feita, minha coluna lombar certamente se identifica com 85 — o que talvez explique por que prefiro observar essas aventuras etárias de longe, com a serenidade de quem já negociou demais com os próprios discos intervertebrais.

Do ponto de vista jurídico, claro, a idade é tudo: define direitos, deveres, aposentadorias, penalidades, preços de ingressos e prioridades de fila. O legislador não negocia com percepções. Mas convém admitir que o direito vive de ficções: pessoas jurídicas que nunca caminharam, presunções que superam fatos, normas que dobram a realidade. Em comparação, a idade sentida de Jackie é quase um sussurro tímido.

E então chegamos a Hebe Camargo. Aquela mesma, a eterna Hebe, que atravessou gerações com sua gargalhada inconfundível. Em 1991, ela interpretou Julieta em um episódio de humor do SBT — não a Julieta trágica de Shakespeare, mas uma versão debochada, brincalhona, afinadíssima com o senso de humor que a celebrizou desde os tempos do rádio. A graça não constava no texto original da peça, mas na entonação, no riso, no brilho nos olhos e no deboche delicioso da veterana. Foi nesse momento que o Beck eternizou ao lembrar sua fala: “Eu não me lastimo por tal, é que em breve completarei 15 anos.” Na boca de Hebe, essa frase não era somente piada — era filosofia popular em forma de gargalhada.

E é assim que seguimos: cada um com seu relógio íntimo, às vezes atrasado, às vezes adiantado, às vezes completamente desalinhado do mundo. Uns reinventam datas, outros as respeitam com rigor suíço. Uns querem voltar aos 28; outros, como a tia da minha avó, insistem nos eternos 62.

No fim das contas, talvez a idade que dizemos seja somente uma das idades possíveis. A outra — a que realmente comanda nossos gestos, nossos sonhos e nossas manias — é aquela que pulsa silenciosa, íntima e irrefutável; a idade que a gente sente. A idade que, como Hebe, como Jackie e como tantos personagens reais que povoam nossas memórias, se anuncia menos no calendário e mais no brilho dos olhos.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

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