
Por João Paulo Vani
Há experiências aparentemente pequenas que, no entanto, revelam estruturas éticas profundas. A cena que viralizou em um semáforo de São José do Rio Preto — o menino Pedro Henrique, vendendo paçocas, passando uma chave de PIX incorreta e recebendo auxílio imediato de um motorista — pertence a esse tipo de acontecimento. Sua força não se explica somente pela ternura, nem somente pela vulnerabilidade exposta, mas por algo mais: a interrupção breve e decisiva da indiferença. É justamente esse mecanismo ético — a quebra da expectativa que opera como gesto de cuidado — que permite aproximar o episódio da antiga narrativa de Os Miseráveis, sobretudo do encontro entre Jean Valjean e o Bispo Myriel, tal como Victor Hugo o escreveu.
Paul Ricœur, ao tratar da identidade narrativa, lembra que o ser humano se constitui não somente pelo que faz, mas pela forma como interpreta suas ações e como as ações dos outros o interpelam. Em O Si-Mesmo como Outro, Ricœur distingue entre “a identidade-idem” (o que permanece igual) e “a identidade-ipse” (a que pode prometer, mudar, converter-se). É precisamente no episódio de Digne que Valjean experimenta, pela primeira vez, a possibilidade de uma identidade-ipse: algo nele é convocado a se reconfigurar. O Bispo Myriel — descrito por Victor Hugo como alguém que converteu sua autoridade episcopal em prática constante de hospitalidade — não anuncia grandes verdades, não prevê destinos, não condiciona sua acolhida. Ele somente age. Essa ação, simples e sem retórica, instaura para Valjean um espaço narrativo novo: o de que sua história poderia seguir outro caminho.
A cena é rigorosamente estabelecida no romance: Valjean, rejeitado repetidas vezes por causa do “passaporte amarelo”, encontra abrigo na casa episcopal. É recebido com naturalidade, alimentado, acomodado. Depois, furta a prataria, sendo encontrado por guardas. Confrontado, o bispo afirma que lhe dera a prata voluntariamente e, sobretudo, recorda que Valjean se tornará — ou poderá se tornar — alguém melhor. Não há promessa mística; há somente o reconhecimento da capacidade humana de não ser inteiramente definido pelo passado. Ricœur veria nessa cena o momento em que o “poder-ser” ético substitui o “ter-sido”. O gesto do bispo não redime Valjean: torna concebível para ele a auto-reconfiguração.
É justamente aqui que Hannah Arendt se torna essencial. Em A Condição Humana, Arendt destaca duas faculdades humanas cruciais para romper a irreversibilidade da vida: o perdão e a ação. Ambas aparecem no episódio de Digne e ambas possuem relevância para pensar o gesto do motorista no semáforo. Arendt afirma que o perdão existe para “desfazer o que fizemos”, ainda que não literalmente, mas de modo a reabrir o campo das possibilidades entre as pessoas. Quando o Bispo Myriel assume a culpa pelo furto, ele não somente liberta Valjean juridicamente; ele desfaz simbolicamente a cadeia de hostilidade que organizava sua vida. Myriel cria, com sua ação, um espaço novo para a liberdade do outro. Isso é Arendt em estado puro: a ação como início, como natalidade moral, como possibilidade de que o mundo seja menos rígido do que parece.
Quando observamos o episódio de Rio Preto sob essa perspectiva, a proximidade não está na magnitude, mas na estrutura. O menino comete um erro trivial: informa uma chave de PIX incorreta. Tudo ao redor daquela cena — o trânsito, o tempo curto, o ambiente de trabalho infantil — favoreceria a pressa e o esquecimento. Mas o motorista interrompe o movimento natural da cidade. Ele percebe, sinaliza o equívoco, corrige e ajuda. Em termos arendtianos, o que ocorre ali é precisamente a irrupção da ação: o ato de alguém que inicia algo, que não se limita ao fluxo impessoal dos acontecimentos. Arendt insiste que a ação humana é sempre incerta, sempre exposta ao olhar dos outros, sempre capaz de gerar efeitos que ultrapassam quem age. É isso que faz do gesto uma experiência pública, ainda que mínima.
O vídeo viraliza porque mobiliza aquilo que Ricœur chamaria de imaginação ética: o espectador reconhece na ação um valor que ultrapassa sua utilidade. Não se trata de transferir dinheiro corretamente, mas de reconhecer alguém que poderia ter sido descartado pela pressa. A hospitalidade de Myriel — oferecer mesa, cama e confiança — e a atenção do motorista — oferecer correção, cuidado e respeito — pertencem à mesma estrutura de sentido: agir para o outro de modo a restaurar sua posição no mundo. São gestos que, cada um a seu modo, rejeitam a lógica da exclusão e reafirmam a dignidade como ponto de partida.
Há, em ambos os casos, uma dimensão narrativa decisiva. Ricœur sublinharia que Valjean, ao ser acolhido, interpreta sua vida distintamente; o gesto do bispo reorganiza o arco de sua identidade. Podemos não saber o impacto do gesto no menino de Rio Preto, mas a própria circulação da história comprova que, para a comunidade que a recebeu, o acontecimento já opera narrativamente. Ele funciona como fábula moral contemporânea: um acontecimento real que se torna paradigma ético.
E talvez a síntese entre Victor Hugo, Ricœur e Arendt esteja justamente aqui: um gesto simples pode instaurar uma nova narrativa para quem o recebe, e uma nova possibilidade de mundo para quem o testemunha. Não é necessário que o gesto transforme toda uma vida — embora, no romance, isso aconteça —; basta que ele transforme um instante. Como Arendt observa, toda ação carrega uma semente de imprevisibilidade, porque ninguém pode controlar os seus desdobramentos. A hospitalidade de Myriel gerou a história de Valjean; a atenção do motorista gerou uma narrativa de solidariedade que atravessou o país. Ambos os episódios, cada um a seu modo, revelam que a ética não é um sistema abstrato, mas uma prática concreta, cotidiana, silenciosa — capaz de redefinir relações e de reencenar, sempre de novo, a possibilidade humana de começar. Parabéns, Bruno. E obrigado.






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