
Infraestrutura Cautelar – Por João Paulo Vani
A aviação sempre foi, para o nosso sertão de São José, uma promessa de horizonte. Cada pouso e decolagem no Aeroporto Prof. Eribelto Manoel Reino é, de algum modo, um gesto coletivo de confiança: a certeza de que o cálculo, a técnica e o cuidado podem vencer a distância e o acaso.
Por isso, a recente medida cautelar da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que limitou temporariamente os voos em sete aeroportos regionais — entre eles o de São José do Rio Preto —, deve ser lida não como obstáculo, mas como sinal de prudência e zelo.
A decisão baseia-se no Regulamento Brasileiro da Aviação Civil nº 139 (RBAC 139), que define padrões mínimos de infraestrutura e segurança operacional. O prazo de três anos concedido para adequações venceu no início de outubro, e parte das melhorias segue pendente. Até que tudo esteja regularizado, os voos serão reduzidos. É uma atitude sensata: melhor um breve intervalo no solo do que um risco no ar.
Falar de aviação em Rio Preto é também falar de memória e aprendizado.
Em 29 de agosto de 1960, o piloto rio-pretense Milton Terra Verdi e seu cunhado Antonio Augusto Gonçalves fizeram um pouso forçado em uma clareira da selva boliviana, tentando concluir o trajeto entre Corumbá e Santa Cruz de La Sierra. O pequeno Cessna 140 ficara sem combustível. Durante mais de setenta dias, Milton resistiu à fome e ao isolamento, alimentando-se de chuva e pequenos animais, até morrer de inanição. Seus corpos só foram encontrados em dezembro e retornaram a Rio Preto em janeiro de 1961.
Sua história permanece viva como uma parábola da resistência humana — e como lembrança de que voar é um ato que exige preparo, prudência e respeito aos limites.
Quase meio século depois, a cidade voltou a sentir o peso da tragédia. A professora Maria Elizabete Caballero, referência em educação ambiental, morreu junto das netas Júlia e Maria Isabel no acidente do voo 3054 da TAM, em 17 de julho de 2007. Seu nome continua associado à defesa da vida e da natureza — valores que hoje se projetam também sobre o debate da segurança aérea.
Mais recentemente, em 9 de outubro de 2017, uma aeronave que vinha de Tangará da Serra (MT) caiu a cerca de 300 metros do aeroporto de Rio Preto, no quintal de uma casa, matando três pessoas. Embora um laudo posterior do Instituto de Criminalística tenha descartado pane seca como causa, o episódio revelou a complexidade de fatores que envolvem a aviação: do combustível à meteorologia, da manutenção à operação humana. Nada é simples quando se está no ar.
Essas histórias — distantes entre si, mas unidas pela mesma linha de céu e pelo padroeiro que olha pelos moradores dessa terra — reforçam uma verdade serena: voar é um privilégio que exige vigilância permanente.
A decisão da Anac, ainda que restritiva, é um lembrete de que o progresso não se mede apenas pelo número de voos, mas pela segurança de cada pouso.
Rio Preto é uma cidade de movimento: de quem chega, parte e retorna.
Se o ritmo do aeroporto diminuir por algum tempo, que isso sirva de pausa para aperfeiçoar o que nos sustenta — e não de retrocesso.
Porque, no fim das contas, voar é belo, mas cuidar é indispensável. E o verdadeiro desenvolvimento não é o que sobe depressa, mas o que pousa em paz.






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