
O Triunfo do Invisível
João Paulo Vani
Entre o vácuo criativo de Salvatore Garau e a era da inteligência artificial, a arte contemporânea parece oscilar entre a desmaterialização do objeto e a hiperprodução de imagens — um paradoxo que revela como o invisível e o visível se tornaram faces de um mesmo espelho.
Nesta semana, o debate em torno da escultura “Io Sono”, de Salvatore Garau, voltou a circular nas redes sociais, reacendendo discussões sobre os limites e paradoxos da arte contemporânea. Embora a obra tenha sido vendida em 2021 por mais de R$ 87 mil, o fascínio e a polêmica que a cercam permanecem atuais — talvez porque, em tempos de saturação visual, a ideia de uma arte invisível soe tanto como provocação quanto como alívio.
“Io Sono” — que em italiano significa “Eu sou” — é uma escultura imaterial, composta somente pelo “vácuo” e pela energia do pensamento. O comprador recebeu um certificado de autenticidade e instruções para “expor” a obra em um espaço vazio de 1,5 × 1,5 metros. Nada existe ali, a não ser a promessa de presença: a obra habita o espaço mental do artista e do espectador, e é nessa tensão entre o visível e o imaginado que ela ganha existência.
O gesto de Garau radicaliza uma longa tradição de desmaterialização da arte, inaugurada por Duchamp e continuada por Yves Klein, Joseph Kosuth e outros artistas conceituais. A diferença é que, em “Io Sono”, o nada é vendido — e caro. Se Klein, em 1958, apresentou um vazio para afirmar a espiritualidade do invisível, Garau o faz num tempo em que o mercado do imaterial domina a economia: dados, NFTs, ideias e experiências valem mais que o objeto em si. O vazio de Garau é, ao mesmo tempo, crítica e sintoma desse mundo.
Umberto Eco, em Obra Aberta, lembrava que a arte contemporânea exige do público uma nova postura: a de coparticipante, aquele que completa o sentido da obra. “Io Sono” leva essa ideia ao extremo — sem o olhar do espectador, ela simplesmente não existe. A escultura é o pensamento em ato, um campo de possibilidades que se atualiza a cada interpretação. E é justamente nesse ponto que ela desafia: o valor não está na matéria, mas na capacidade de pensar o ser.
Mas há uma ironia final nesse jogo de presenças e ausências. Enquanto Garau cria, no vazio, uma obra invisível sustentada pela imaginação, a inteligência artificial — essa nova força estética do século XXI — se dedica a dar forma e visibilidade ao que antes era apagado: rostos reconstruídos, vozes recriadas, mundos inteiros reconstituídos a partir de fragmentos digitais; ou ao que o usuário espera conceber por meio dos prompts. Se Garau nos convida a acreditar no invisível, a IA nos convida a duvidar do visível.
Mas esse é assunto para outro artigo.

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.
É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.





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