Sobre o autor

Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais “BOM DIA Rio Preto” (2007 a 2013) e “Diário da Região” (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Para mais posts, siga também @BlogDoBeck no Instagram.

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Escritor e doutor em Teoria Literária, João Paulo Vani estreia como colunista do Blog do Beck. Vem ler sua primeira coluna ‘A polêmica do nome Jurandir e o silêncio da Jurema’

Atualizado em 17 de outubro de 2025, 16:03h
Toda sexta, João Paulo Vani trará ao Blog do Beck seu olhar literário sobre os assuntos que viralizaram nas redes sociais. (Foto: Ricardo Boni)

O Blog do Beck tem a honra e o prazer de apresentar como colunista do site João Paulo Vani. Ele é doutor em Teoria Literária pela Unesp, fundador da ABRESC e editor acadêmico. Autor de 16 obras, dentre as quais “Terror e Trauma na Literatura”, “21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia” e “Saberes Transversais para a Odontologia”.

Em sua primeira coluna aqui conosco, o que se repetirá toda sexta-feira, Vani aborda a polêmica em torno do nome “Jurandir”, que virou gíria na internet para descrever um tipo específico de homem: o “homem Jurandir”, que seria infiel, enrolão, safado e/ou que não respeita relacionamentos. A expressão se popularizou em vídeos virais e memes, especialmente em plataformas como o TikTok, X e Instagram.

Abaixo, o artigo de João Paulo Vani, intitulado oportunamente de ‘A polêmica do nome Jurandir e o silêncio da Jurema’. Aprecie sem moderação.

Você já reparou que a língua portuguesa falada no Brasil em uma mania irresistível de batizar tudo com nomes próprios? É como se, em vez de apenas descrever as coisas, a gente sentisse a necessidade de dar identidade, rosto e até CPF para elas. Foi assim que o pobre do Jurandir acabou, recentemente, virando piada nacional. Nas redes sociais, ele não é mais apenas aquele tio da família ou o vizinho que gosta de prosear na calçada. “Jurandir” virou sinônimo de homem sem noção, aquele sujeito estabanado que insiste em se achar mais do que é. A internet abraçou a ideia e pronto: o nome deixou de ser apenas nome, virou categoria.

Esse fenômeno, porém, não é novidade. Aliás, é tão antigo quanto o próprio português falado no Brasil. O exemplo mais clássico talvez seja o consagrado Bráulio, apelido que já virou quase sinônimo oficial de pênis. Do outro lado da anatomia, temos a Jurema, que em muitas rodas aparece como sinônimo de vagina. Cláudio e Sebastião também já foram lembrados como apelidos íntimos masculinos, enquanto Maria se multiplicou em expressões que todo brasileiro conhece: Maria-vai-com-as-outras, a que não tem opinião própria; Maria-gasolina, a que só anda com quem tem carro; Maria-chuteira, a que se encanta por jogadores de futebol.

João também não escapa: temos o João-sem-braço, que finge inocência para se livrar de responsabilidades, e o João-ninguém, sempre apagado e sem importância. O Zé, coitado, virou coletivo, se desdobrando em Zé-ruela, Zé-mané e Zé-ninguém, todos reforçando a imagem do pobre coitado sem valor. Já nos anos 80, surgiram Mauricinho e Patricinha, caricaturas da vida de grife e vitrine, os jovens consumistas que se preocupavam mais com a etiqueta da roupa do que com o conteúdo da conversa.

Curiosamente, quando Jurandir foi elevado ao posto de “homem sem noção”, surgiram vozes indignadas, preocupadas em defender a honra dos Jurandires de batismo. Mas, convenhamos, ninguém nunca ergueu cartaz quando a Jurema virou apelido íntimo de vagina. Nenhuma nota de repúdio foi escrita em defesa das incontáveis Juremas batizadas em cartório pelo Brasil afora. Nenhum manifesto exigiu respeito às portadoras desse nome. A língua não pede licença. Ela cria, se espalha, pega carona no humor coletivo e segue adiante. Se fosse ofensivo de verdade, nem grudava.

E aí está a grande graça do português falado no Brasil: ele é irreverente, debochado, criativo. Transforma Maurício em Mauricinho, Patrícia em Patricinha, Amélia em estereótipo de mulher submissa, Bráulio em apelido de pênis e Jurema em apelido de vagina. A prova disso também está na cultura pop. Quem não se lembra dos Mamonas Assassinas, que já cantavam em tom de sátira: “O meu nome é Dejair, facinho de confundir com João do Caminhão”? Ninguém saiu em passeata em defesa dos Dejair ou dos Joões do Brasil. Todo mundo entendeu o que aquilo era: piada, humor, sátira da nossa própria mania de rir até do que é sério.

Ou seja, se o brasileiro sempre brincou com nomes, por que agora resolveram que só o Jurandir merece blindagem especial? A língua não é museu, não é estátua de bronze: ela é carnaval, cheia de apelidos, gírias e invenções. Politizar cada detalhe é como tentar impor silêncio em bloco de rua. Não dá certo.

Portanto, da próxima vez que alguém se ofender em nome dos Jurandires, lembre-se da Jurema, que há décadas frequenta rodas de conversa como apelido íntimo sem que ninguém tenha movido uma palha. A língua é democrática: escolhe nomes ao acaso e lhes dá novos sentidos, sem pedir permissão. E, se antes eram Bráulio, Maria e Mauricinho, agora também temos os Enzos e as Valentinas, coitados, que se tornaram sinônimo dos manieirismos millennials e viraram piada pronta nas redes sociais. É sempre assim: cada geração escolhe os seus nomes para brincar, e ninguém nunca saiu menos brasileiro por causa disso.

No fim das contas, é isso que mantém o português vivo: a nossa capacidade de rir, de criar e de reinventar palavras todos os dias.

Bio completa do autor:

João Paulo Vani é doutor em Teoria Literária pela Unesp (com estágio na University of Louisville/EUA). Realizou pós-doutorado em Linguística Aplicada na Universidade do Minho (Portugal) e atualmente desenvolve pesquisas de pós-doutorado na USP (História) e na Unesp/Araraquara (Linguística Aplicada). Editor acadêmico há 20 anos, é fundador e presidente da ABRESC. Pesquisa memória, trauma, migrações e formação de professores, integra o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (USP) e colabora com o Instituto de História Tadeusz Manteuffel, da Academia Polonesa de Ciências.

É autor, entre outros, de Terror e Trauma na Literatura (2018), 21 reflexões sobre o mundo pós-pandemia (2021), AGERIP: 50 anos de histórias e conquistas (2025) e Saberes Transversais para a Odontologia (2025). Também organizou e coassinou obras como Shoah: 80 anos de memória e resistência (vols. 1 e 2) e 20 adolescentes e seus segredos: Sexualidade.

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    Paulo Becknetter, o Beck, é jornalista. Nos últimos anos, desempenhou a função de colunista de atualidades nos jornais "BOM DIA Rio Preto" (2007 a 2013) e "Diário da Região" (2013/14). Agora, oficialmente na web, o Blog do Beck afina sua vocação para a comunicação diária, alinhando informação digital e bom humor na medida ideal. Nas horas de faxina, tratar dos mesmos assuntos com Berenice Du Lar, a interina e eterna Garota da Laje de Ipanema. Aceita, brazeeel!

    beck@blogdobeck.com